João Dalmácio e sua hotelaria de inovações
A atual edição da CasaCor capixaba se realiza na antiga sede do Hotel Porto do Sol, onde há, inclusive, um espaço que presta homenagem ao fundador do hotel, o empresário João Dalmácio Castelo

Por João Gualberto
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiA atual edição da CasaCor capixaba se realiza na antiga sede do Hotel Porto do Sol, onde há, inclusive, um espaço que presta homenagem ao fundador do hotel, o empresário João Dalmácio Castelo. Homenagem mais do que merecida, já que o empreendimento teve um caráter muito inovador, pelas razões que quero abordar. João foi, ele próprio, um homem muito à frente de seu tempo, com grande visão de futuro.
É preciso lembrar que Vitória começava a se transformar, mais uma vez, nos anos 1980, quando o hotel foi construído, com os aterros na Enseada do Suá, a duplicação da Avenida Dante Michelini e o deslocamento do comércio do Centro da cidade. A dinâmica da cidade definitivamente se deslocava para a Região Norte. Os maiores responsáveis pelas profundas transformações urbanas pelas quais passávamos eram os novos empreendimentos econômicos, impulsionados pelo Porto de Tubarão, pela antiga CST e pelas indústrias instaladas no CIVIT, para ficar nos mais importantes.
Dentre essas novidades, tinha especial relevância a localização, na Serra, do CIVIT, que abriga até hoje muitas indústrias importantes; a proximidade com a Aracruz Celulose e o novo polo que se instalaria naquele município; a ampliação do movimento no aeroporto de Vitória; e as novas zonas residenciais delimitadas pela Praia de Camburi, seu calçadão e seus quiosques. Era uma outra cidade que nascia.
Nenhuma outra capital brasileira fez uma mudança tão radical de seu centro dinâmico quanto Vitória. A começar pela Prefeitura, que se instalou na Avenida Beira-Mar ainda nos anos 1970, seguida pela Câmara Municipal de Vitória. Logo depois dessas mudanças, ficou pronto o aterro da Enseada do Suá, que trouxe consigo o edifício do Palácio do Café, outrora um espaço econômico importante na Praça Costa Pereira. A vinda do Shopping Vitória foi definitiva, logo depois do Boulevard e do Centro da Praia. Estava, assim, consolidada a vinda do comércio para a Região Norte.
Em termos da administração pública, a transferência da sede do Tribunal de Justiça foi simbólica do esvaziamento do Centro da cidade e da consolidação de uma nova versão da capital do Espírito Santo. O que foi acontecendo na sequência é do conhecimento de todos: a Enseada do Suá passou a receber edifícios comerciais e residenciais, e a dinâmica social abandonou o antigo Centro.
Quem percebeu essas transformações com profundidade e espírito empreendedor, muito antes que tudo isso tivesse acontecido, foi João Dalmácio Castelo Miguel. Ele sonhou com um hotel que fosse capaz de captar e multiplicar as demandas dos novos tempos e as realizou em um projeto arquitetônico e de funcionamento muito moderno. Ele ajudou a cidade a mudar em direção ao progresso.
O Hotel Porto do Sol não ficava mais próximo ao poder expresso pelos governos, mas sim a uma nova dimensão que se instalava no campo dos negócios e nas mudanças no estilo de vida que ela inspiraria. De forma impensável até então, o hotel foi instalado no extremo da Praia de Camburi. A modernidade do Hotel Porto do Sol era absoluta: salões para convenções, restaurante com cozinha internacional, eventos elegantes, música sofisticada. Enfim, um novo tempo capixaba que se expressava nesse empreendimento inovador.
A própria concepção arquitetônica do renomado Paulo Casé, os detalhes da beleza interior do Porto do Sol, inclusive a participação de Ziraldo, tudo isso fez do hotel a marca de um tempo. Em seus apartamentos, hospedaram-se os maiores visitantes que a cidade teve por longo período, entre eles o grande cronista Carlinhos de Oliveira, que morou ali nos momentos finais de sua vida. Era muito amigo de João Dalmácio.
A hotelaria de Vitória não seria a mesma sem o Porto do Sol, e o hotel não seria o mesmo sem João Dalmácio. Requinte, bom gosto, qualidade, inovação, um novo estilo de vida. Tudo isso foi, um dia, o Hotel Porto do Sol e o seu simpático proprietário à sua frente, com charme e elegância. Referenciar todos esses aspectos presentes na hotelaria inovadora que o empreendimento expressou é mais do que o nosso dever: é resgatar uma dívida de gratidão que a cidade deve ter para com ele.
*** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.
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