Nem todo silêncio é paz

O silêncio pode ser descanso. Pode ser escolha, recolhimento, prudência e até uma forma saudável de organizar os pensamentos.

Foto: Ilustrativa/Magnific

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva

O silêncio pode ser descanso. Pode ser escolha, recolhimento, prudência e até uma forma saudável de organizar os pensamentos. Há momentos em que falar menos nos ajuda a compreender melhor o que sentimos. Mas nem todo silêncio nasce da tranquilidade.

Algumas pessoas se calam porque têm medo de conflitos. Outras aprenderam que expressar sentimentos é sinal de fraqueza. Há ainda quem permaneça em silêncio porque acredita que ninguém compreenderá sua dor. Nesse caso, aquilo que parece serenidade por fora pode esconder ansiedade, tristeza, raiva ou sofrimento.

O problema não está simplesmente em falar pouco. O mais importante é perceber o que existe por trás desse silêncio. Ele permite que a pessoa se reorganize ou serve para evitar constantemente aquilo que precisa ser enfrentado?

Quando emoções são reprimidas por muito tempo, elas podem aparecer de outras formas: irritabilidade, afastamento, dificuldade para dormir, tensão corporal ou explosões aparentemente desproporcionais. O que não encontra palavras nem sempre desaparece.

Por isso, aprender a falar sobre o que sentimos é também uma forma de cuidado. Não significa contar tudo a todos, mas encontrar pessoas e espaços seguros onde seja possível expressar aquilo que pesa. Da mesma forma, quando percebemos alguém mais silencioso, talvez seja melhor oferecer presença do que pressionar por explicações. Existem silêncios que curam e silêncios que adoecem. A diferença está em saber se estamos escolhendo o silêncio para nos encontrar ou utilizando-o para nos esconder daquilo que precisamos compreender.

*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral, publicado pela Editora Dialética. É mestre em Ciências da Religião, jornalista e psicólogo. Atualmente, é Vigário Episcopal para a Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, no bairro Independência, em Cachoeiro de Itapemirim. É membro das Academias Iunense e Cachoeirense de Letras.

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