O Espírito Santo está envelhecendo. A inclusão está acompanhando?
Em 2029, pela primeira vez, os capixabas com 60 anos ou mais serão mais numerosos que as crianças. O estado já tem 631 mil idosos, mas nenhum órgão executivo dedicado a eles. E a pessoa com deficiência, também numerosa, precisa de mais do que uma subsecretaria. Quem responde pelo envelhecimento capixaba?

Por Marcel Carone
Uma notícia publicada por A Tribuna deveria estar sobre a mesa de cada prefeito, vereador e gestor público capixaba. Segundo projeções do IBGE apresentadas pela reportagem, em 2029 o Espírito Santo terá cerca de 805 mil pessoas com 60 anos ou mais e 786 mil crianças e adolescentes de até
Receba as principais notícias no seu WhatsApp!14 anos. Pela primeira vez, os idosos serão mais numerosos que as crianças. O futuro já tem data para bater à nossa porta.
E o futuro, na verdade, já chegou. O Censo 2022 registrou 631.398 pessoas idosas no estado, 16,47% da população, acima da média nacional. No índice de envelhecimento, o Espírito Santo ocupa o 6º lugar entre as unidades da federação. Vitória já tem um em cada cinco moradores na faixa dos 60 anos ou mais. E os dez maiores municípios concentram 62,5% desses idosos.
O dado que mais me impressiona, porém, está no interior. Itaguaçu tem 23,65% de idosos. São José do Calçado, 22,58%. Itarana, 22,54%. Os municípios mais envelhecidos do estado não estão na Grande Vitória. Qualquer política desenhada a partir da capital vai deixar exatamente os territórios que mais precisam fora do centro da decisão.
A exclusão tem rosto
Quando falamos em inclusão, muita gente ainda pensa apenas nas pessoas com deficiência. Essa pauta é indispensável, segue urgente e não pode ser tratada como resolvida. Mas precisamos olhar também para a mulher de 75 anos que deixa de sair porque a calçada é irregular. Para o aposentado que não consegue marcar uma consulta porque tudo virou aplicativo. Para quem cruza a cidade em busca de fisioterapia. E para quem, mesmo disposto a trabalhar, é tratado como se já não tivesse nada a oferecer.
Não podemos aceitar que envelhecer signifique uma expulsão silenciosa da vida em sociedade. Quem envelhece continua tendo sonhos, opiniões, afetos e vontade de participar. E há um preconceito que precisamos combater sem rodeios: infantilizar pessoas idosas ou decidir por elas sem ouvi-las.
A raiz que ninguém enfrenta
Grande parte do preconceito nasce do desconhecimento e se fortalece na ausência de convivência. Na sede da ONU, em Nova York, defendi uma convicção que considero fundamental: informação gera conhecimento, conhecimento aproxima, aproximação cria familiaridade e familiaridade rompe barreiras. É essa cadeia que transforma a cultura, muda comportamentos e torna as relações humanas mais empáticas e respeitosas.
Campanhas isoladas sensibilizam. Educação contínua, acompanhada de oportunidades reais de convivência, transforma mentalidades. A inclusão precisa deixar de ser obrigação legal para se tornar valor cultural. E o poder público, que alcança milhões de pessoas por escolas, unidades de saúde e serviços, não pode se omitir nessa educação.
Quem responde pelo idoso capixaba?
Aqui está a defesa central desta coluna: o Espírito Santo precisa de uma estrutura executiva dedicada à pessoa idosa.
O estado não parte do zero. A Lei 5.780/1998 instituiu a Política Estadual do Idoso. Existe o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, paritário e fiscalizador. Existe o Fundo Estadual da Pessoa Idosa. Existe política de saúde da pessoa idosa desde 2012. O que falta é comando: um responsável identificável, com equipe, orçamento e autoridade para articular saúde, transporte, habitação, trabalho e cultura em torno do grupo que cresce mais rápido no estado.
E aqui preciso ser claro, porque conheço de perto a causa das pessoas com deficiência e a defendo há anos. O Espírito Santo tem a SUPED, subsecretaria dedicada a esse público. Estrutura necessária, mas que precisa dar o próximo passo: virar secretaria. A população com deficiência é representativa demais para continuar em posição subordinada. No Brasil, o Censo 2022 registrou 14,4 milhões de pessoas com deficiência, 7,3% da população. E quase metade delas, 45,4%, tem 60 anos ou mais. As duas pautas se cruzam na vida real.
Há uma razão estrutural que precisa ser dita sem rodeios. Uma subsecretaria depende, na prática, das prioridades da secretaria à qual está vinculada. O secretário de Direitos Humanos tem uma pasta inteira para gerir, e a causa da pessoa com deficiência concorre por espaço com dezenas de outras agendas. Não por má vontade: por desenho. Quando o órgão é específico, a prioridade nasce da própria estrutura. Secretaria tem orçamento próprio, equipe dedicada e autoridade para articular e cobrar. É essa autonomia executiva que transforma boa intenção em ação efetiva. Por isso defendo os dois movimentos ao mesmo tempo: transformar a SUPED em secretaria e criar estrutura específica para a pessoa idosa.
A demanda não é minha. A 6ª Conferência Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa, realizada em outubro de 2025 em Domingos Martins, propôs a criação de uma gerência da pessoa idosa na Secretaria de Direitos Humanos. O sistema capixaba de controle social já formulou a resposta. Falta o Executivo transformá-la em decisão, equipe e orçamento. Pela Constituição estadual, a iniciativa é do governador. Deputados e vereadores podem pressionar, fiscalizar e construir a agenda, mas quem cria o órgão é o Palácio Anchieta.
Não estamos pedindo uma utopia. Niterói criou secretaria do idoso em 2017 e virou referência nacional, com mais de 10 mil idosos beneficiados em um
único ano. Porto Alegre, a capital mais longeva do país, mantém estrutura própria. São Paulo articula mais de vinte secretarias em torno de uma coordenação dedicada. Onde o envelhecimento ganhou endereço, ganhou resultado.
Sem orçamento, é só discurso
O plano de aplicação do fundo estadual para 2025 previu R$ 1,35 milhão. É um número que precisa ser lido com honestidade: previsto não é executado. A cobrança que faço é simples: quanto foi empenhado, quanto foi pago e em que serviço isso se transformou? Mapeamentos e diagnósticos são úteis se mudarem a vida de alguém. Senão, são papel.
Quem cuida também precisa de cuidado
Existe uma realidade pouco lembrada: a de quem cuida. Em muitas casas, familiares reorganizam a vida para acompanhar pais, mães e avós. Perdem renda, adiam sonhos e chegam ao limite físico e emocional. O IJSN registrou
5.014 ocorrências de violência contra pessoas idosas em 2025, e 63% delas dentro de casa. Ninguém deveria escolher entre cuidar de alguém e garantir o próprio sustento. E ninguém deveria sofrer violência no lugar onde deveria estar mais seguro.
A Política Nacional de Cuidados, sancionada em 2024, abriu caminho para estados e municípios estruturarem apoio a cuidadores, centros-dia e atendimento domiciliar. O Espírito Santo pode ser protagonista nessa adesão.
Quem envelhece com deficiência
Precisamos enxergar também quem vive as duas pautas ao mesmo tempo. Pessoas com síndrome de Down, autismo, deficiência física ou sensorial acumulam barreiras ao longo da vida, e o envelhecimento soma novas barreiras às antigas. Isso exige serviços preparados e políticas que integrem as duas estruturas, em vez de mandar cada pessoa de porta em porta. Envelhecer não é sinônimo de deficiência, mas a acessibilidade precisa acompanhar todas as fases da vida. Uma política que trata idoso e pessoa com deficiência como mundos separados falha com quem pertence aos dois.
A mudança começa nas cidades
Calçadas transitáveis, ônibus acessíveis, bancos para descanso, sinalização legível e praças onde gerações convivam não são favores. São condições de cidadania. Uma cidade boa para quem anda mais devagar, usa cadeira
de rodas ou tem baixa visão é melhor para todo mundo. E preparar o estado para envelhecer não significa colocar crianças e idosos em lados opostos: significa aproximar gerações. Quando crianças convivem com seus avós, toda a sociedade sai ganhando.
O alerta de 2029
2029 está logo ali. A estatística é um alerta, não uma sentença. O Espírito Santo pode dar ao envelhecimento o que nenhum estado brasileiro deu até hoje: um órgão executivo próprio, com endereço, orçamento e prioridade. E pode, no mesmo movimento, transformar a SUPED em secretaria, dando à pessoa com deficiência a autonomia executiva que a causa merece. Inclusão não é disputa entre causas. É capacidade de enxergar todos os públicos que precisam de cuidado específico.
Porque o verdadeiro avanço de uma sociedade não está em fazer sua população viver mais. Está em garantir que ninguém, ao envelhecer, deixe de ser visto, ouvido e incluído. A inclusão não tira férias. E 2029 não espera.
*** Marcel Carone é embaixador da Inclusão.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
