O pavão desiludido

Quero lembrar aos meus leitores um outro autor local que foi muito importante, sobretudo nas páginas do Jornal do Brasil  e de outras publicações igualmente relevantes: Carlinhos de Oliveira

Foto: Reprodução

Por João Gualberto

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Alguns escritores capixabas fizeram muito sucesso em todo o Brasil, um bom exemplo é certamente Rubem Braga, por décadas considerado um dos maiores cronistas brasileiros, sobretudo na segunda metade do século XX. Entretanto, não foi o único capixaba de sucesso nacional naquele período. Hoje quero lembrar aos meus leitores um outro autor local que foi muito importante, sobretudo nas páginas do Jornal do Brasil  e de outras publicações igualmente relevantes: Carlinhos de Oliveira.

Ele foi celebrizado por suas colaborações quase diárias ao Jornal do Brasil, onde escreveu por mais de duas décadas, tornando-se um dos grandes cronistas brasileiros do século XX. Não se limitou a ele, importante foi sua participação, por exemplo, no Pasquim, semanário alternativo que marcou toda uma geração nos anos 1970.

Suas crônicas políticas diárias, no ano de 1968, Jornal do Brasil, estão reunidas em um livro delicioso, e publicado postumamente em 1995, chamado Diário da Patetocracia,  revelando acontecimentos absurdos em torno de prisões, censura, vandalismos praticados contra o mundo das artes e outros fatos ocorridos naquele ano em que o governo militar foi fechando seu cerco contra a democracia brasileira, é dele a seguinte pérola: Todo dia um pateta qualquer enfia sua pata numa peça de teatro e corta as frases que lhe parecem atentatórias à moral, aos bons costumes e a democracia. Não se passa uma tarde sem que outro pateta de ar de sua graça, cortando sequências inteiras de filmes. A patetocracia não dorme em serviços.

José Carlos de Oliveira, nacionalmente conhecido como Carlinhos de Oliveira, além de autor famoso de crônica tem romances de sucesso como Terror e Êxtase, A Revolução das Bonecas, ou os Olhos Dourados do Ódio. Eleteve uma fase como cronista em Vitória, antes de mudar para o Rio de Janeiro, um jovem de apenas 18 anos. Foi, nessa fase,  jornalista militante e colunista em A Tribuna, na Folha do Povo e ainda na revista Vida Capichaba. Seus escritos dessa época estão reunidos em O Rebelde Precoce: crônicas da adolescência, obra organizada por Jason Tércio, que também faz uma inspirada introdução: Venho de Maracajuaguaçu, você nunca ouviu falar.

Carlinhos de Oliveira escreveu também uma obra autobiográfica chamada, O Pavão Desiludido, publicada originalmente em 1972, que foi muito bem recebida no meio literário. Ele explora nela muitas de suas tragédias pessoais, transformadas em uma espécie de laboratório de observação social e existencial. Trata-se de um relato duro, às vezes mesmo cruel, de sua trajetória desde o nascimento no dia 18 de agosto de 1934 até a sua partida para o Rio de Janeiro ainda muito jovem, aos 18 anos.

Vitória, na obra, aparece com pano de fundo para um roteiro sofrido e sem esperanças. Ele, de fato não foca, nos detalhes sociais do território, da construção cultural coletiva onde habitou na infância e na juventude, isso ele faz em crônicas quando ainda morava na ilha. Em O Pavão Desiludido seus relatos são do sofrimento de uma vida pobre e sem perspectivas em uma cidade que nada lhe deu, a não ser conhecer a dor. Ele descreve a infância de um menino que não teve saúde, higiene, conforto, roupa, comida, consolo ou amor. É uma fala de desespero.

O pai, ele soube pouco antes de partir para o Rio, em uma conversa ocasional, havia suicidado depois de ter estuprado e matado a própria filha. Muito angustiado, decidiu partir ir embora, sem qualquer orientação. Sem dinheiro, sem conhecer ninguém, lá se foi ele rumo ao seu próprio destino. Para trás deixara uma mãe, que no livro é descrita como pessoa cruel e desiquilibrada, e que passou a infância a surrá-lo por qualquer motivo, e até sem qualquer motivo. Vida miserável passada em casas sem conforto, muitas vezes sem comida.

Faz 16 anos que me encontro neste mundo, provando unicamente humilhações e superando uma por uma, valente que sou e seguro que estava de que o futuro haveria de ser diferente, mas essa última, santo Deus, essa história de um pai estuprando a própria filha … escreveu sobre o dia em que soube dos terríveis acontecimentos. Tudo o que aconteceu com esse pobre menino cercado do ódio de uma mãe sem nenhum amor pelos filhos, o forjou para uma vida amarga, mas o fez também um grande entendedor das tragédias humanas.

Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós, escreveu Kafka e me lembrou um dia desses o Pedro Nunes.  A obra de Carlinhos de Oliveira encontra-se hoje muito esquecida, e merece ter mais atenção. Não podemos perder a memória de um escritor capixaba tão importante nas letras nacionais.

*** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.

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