Ondas de calor, enchentes e secas expõem a crise climática
Ondas de calor, enchentes, secas e tempestades severas marcaram 2025 e evidenciam que os impactos do aquecimento global já afetam a saúde, as cidades e a sobrevivência humana

Ondas de calor se espalham por grande parte do Brasil desde o final de 2025 e impõem um alerta impossível de ignorar. Mais do que episódios extremos e isolados, elas se apresentam como desequilíbrios profundos, acumulados ao longo do tempo e acelerados pela ação humana. O fenômeno encerra um ano marcado por uma sucessão de tragédias climáticas, resultado direto da intensificação de eventos extremos associada ao aquecimento global.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiEntre maio e junho de 2025, enchentes de grandes proporções atingiram dezenas de municípios do Rio Grande do Sul, provocando inundações prolongadas, deslizamentos de encostas, destruição de infraestrutura urbana e rural, milhares de desabrigados e mortes confirmadas. Em novembro, o país voltou a ser surpreendido por um cenário atípico, com uma sequência de tempestades severas que incluiu tornados no Paraná e em Santa Catarina, ampliando a percepção de que a instabilidade climática deixou de ser exceção.
Ao longo de todo o ano, ondas de calor persistentes estabeleceram novos recordes de temperatura em várias regiões, sobretudo no Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste. Em paralelo, secas severas castigaram a Amazônia, o semiárido nordestino e áreas do Sudeste, comprometendo o abastecimento de água, a produção agrícola e a vida de populações inteiras.
Além dos eventos de grande repercussão nacional, 2025 foi marcado por uma sucessão de episódios localizados de chuvas intensas, alagamentos urbanos, deslizamentos de terra e tempestades convectivas em áreas densamente povoadas. Esses eventos revelaram, de forma recorrente, a fragilidade estrutural das cidades brasileiras diante da nova realidade climática.
Crise climática
A crise climática se impõe, assim, como um desafio direto à sobrevivência de toda a vida no planeta. Aquilo que por décadas foi tratado como anomalia passou a integrar o cotidiano, exigindo uma leitura estrutural do problema, respostas urgentes e uma mudança profunda no comportamento coletivo.
O cenário vai além de um desconforto temporário. O calor extremo atua como um agravante silencioso de doenças crônicas e como gatilho para emergências de saúde pública. Pessoas com hipertensão, doenças cardiovasculares e problemas respiratórios estão entre as mais afetadas, assim como idosos, crianças e trabalhadores expostos ao sol. Em períodos prolongados de altas temperaturas, aumentam os casos de desidratação, crises hipertensivas, arritmias, agravamento de quadros respiratórios e a incidência de acidentes vasculares cerebrais.
Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que as ondas de calor figuram entre os eventos climáticos extremos mais letais do planeta, superando, em muitos contextos, enchentes e tempestades. Em países marcados por baixa arborização urbana, alta impermeabilização do solo e profundas desigualdades socioespaciais, os impactos tendem a ser ainda mais severos e desiguais.
Ondas de calor e saúde humana
Os efeitos do aquecimento global extrapolam o campo da saúde. O calor excessivo pressiona os sistemas de abastecimento de água, eleva o consumo de energia, reduz a produtividade no trabalho e amplia os riscos de apagões, incêndios urbanos e rurais. Nos centros urbanos, o fenômeno das ilhas de calor intensifica a sensação térmica e dificulta o resfriamento noturno, transformando bairros inteiros em ambientes hostis à permanência humana.
Diante desse quadro, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de duas frentes de ação indissociáveis: mitigação e adaptação climática. Mitigar implica enfrentar as causas do aquecimento global, com a redução das emissões de gases de efeito estufa e a revisão dos padrões de consumo, mobilidade, produção e uso do solo. Adaptar, por sua vez, significa preparar cidades e territórios para conviver com eventos extremos mais frequentes e intensos.
Planejamento e adaptação
A adaptação exige decisões concretas no planejamento urbano e na gestão pública. Ampliar áreas verdes, investir em arborização urbana, recuperar rios e nascentes, criar corredores de ventilação, repensar materiais de pavimentação, fortalecer a atenção primária à saúde e integrar dados climáticos às políticas municipais deixaram de ser propostas futuras. Tornaram-se necessidades imediatas.
Este início de ano, marcado por temperaturas fora da curva, também convoca uma reflexão sobre comportamento individual e coletivo. O uso racional da água e da energia, escolhas mais sustentáveis de mobilidade, a redução de desperdícios e a atenção redobrada aos grupos vulneráveis durante ondas de calor fazem parte da resposta. Ainda assim, mudanças individuais só produzem efeito duradouro quando acompanhadas de políticas públicas estruturantes, financiamento climático e governança local eficaz.
O aquecimento global já se manifesta no cotidiano, no corpo das pessoas e na rotina das cidades. Ignorar os sinais significa aceitar custos humanos, sociais e econômicos cada vez mais elevados. Enfrentar a crise climática exige ação imediata, planejamento integrado e a compreensão de que adaptação não é gasto, mas investimento em saúde, bem-estar e futuro.
O calor extremo é um alerta inequívoco. A escolha que se impõe é clara: reagir de forma pontual a cada crise ou transformar, de maneira estrutural, a forma como ocupamos, planejamos e cuidamos dos nossos territórios.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
