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Os preconceitos do professor e o impacto na educação

Preconceitos, sejam eles explícitos ou implícitos, são ideias pré-concebidas que todos nós, inevitavelmente, carregamos

5 mins de leitura

em 02 de jul de 2024, às 10h25

Foto: Divulgação

Por Eduardo Machado

Em uma das nubladas manhãs de Guaçuí, enquanto preparava uma aula de Filosofia, uma reflexão me ocorreu: até que ponto meus próprios preconceitos influenciam a educação dos meus alunos? Como professor de uma escola pública no Espírito Santo, tenho a responsabilidade de oferecer um ambiente de aprendizado inclusivo e justo. No entanto, é impossível negar que, como ser humano, carrego preconceitos que, ainda em desconstrução, podem, conscientemente ou não, afetar a maneira como ensino.

Preconceitos, sejam eles explícitos ou implícitos, são ideias pré-concebidas que todos nós, inevitavelmente, carregamos. Eles podem se manifestar de diversas formas – desde uma preferência por certos alunos até expectativas diferentes baseadas em gênero, cor da pele ou condição socioeconômica. Mas como esses preconceitos podem realmente atrapalhar o processo educacional?

Primeiramente, é preciso reconhecer que cada aluno traz consigo uma história única, uma bagagem cultural e emocional que influencia seu modo de aprender. Quando permitimos que nossos preconceitos ditem nossa interação com eles, corremos o risco de criar um ambiente de aprendizado desigual. Por exemplo, um professor que, mesmo de maneira inconsciente, acredita que meninos são naturalmente melhores em matemática do que meninas, pode acabar incentivando mais os alunos do sexo masculino, oferecendo-lhes mais atenção e estímulos.

Outro exemplo comum é o preconceito racial. Estudos mostram que professores tendem a ter expectativas mais baixas para alunos negros e pardos, o que pode resultar em uma menor dedicação a esses alunos, tanto em termos de tempo quanto de recursos. Esse tipo de comportamento reforça um ciclo de exclusão e baixo desempenho, minando a confiança e a motivação dos alunos afetados.

Há também o preconceito socioeconômico. Em escolas públicas, é frequente termos alunos de diferentes contextos econômicos. Um professor que, conscientemente ou não, acredita que alunos de famílias mais pobres têm menos potencial, pode acabar oferecendo menos oportunidades para esses alunos se destacarem, subestimando suas capacidades e, assim, perpetuando a desigualdade.

Contudo, a questão se torna ainda mais grave quando lidamos com professores que não apenas possuem preconceitos, mas os manifestam abertamente em sala de aula. É perturbador pensar que alguns educadores parecem fazer questão de deixar claro seus vieses e estereótipos, utilizando sua posição de autoridade para disseminar discriminação e ódio. Esses professores, com suas atitudes deliberadamente excludentes e preconceituosas, não só comprometem o desenvolvimento intelectual dos alunos, mas também ferem sua autoestima e dignidade.

Não é raro ouvir relatos de alunos que foram publicamente humilhados por sua cor de pele, sua origem social ou sua orientação sexual. Professores que se comportam dessa maneira deveriam ser lembrados de que sua função é educar, não perpetuar a intolerância. Suas atitudes não apenas desonram a profissão, mas também causam danos psicológicos duradouros nos alunos. A escola deveria ser um refúgio de aprendizagem e crescimento, não um espaço onde preconceitos são legitimados e perpetuados.

Mas o que podemos fazer para mitigar esses preconceitos e garantir uma educação mais justa e igualitária?

O primeiro passo é a conscientização. Reconhecer nossos próprios preconceitos é crucial. Isso exige uma autoavaliação contínua e a disposição para aprender e desaprender. A formação continuada dos professores, com ênfase em diversidade e inclusão, pode ser um aliado poderoso nesse processo.

Além disso, é essencial criar um ambiente de sala de aula que celebre a diversidade. Isso pode ser feito através da inclusão de conteúdos que reflitam a pluralidade de nossa sociedade, proporcionando aos alunos diferentes perspectivas e estimulando o respeito e a empatia.

Adotar uma postura de equidade, em vez de igualdade, também é fundamental. Enquanto a igualdade trata todos de maneira uniforme, a equidade reconhece as diferentes necessidades e proporciona os recursos necessários para que cada aluno alcance seu pleno potencial.

E, por fim, promover um diálogo aberto com os alunos. Ouvir suas experiências, suas percepções e, principalmente, suas críticas pode nos ajudar a identificar e corrigir práticas preconceituosas. A voz dos alunos é uma ferramenta valiosa para um ensino mais humano e inclusivo.

Enquanto professor de Filosofia, acredito que nossa missão vai além do ensino de teorias e conceitos. Devemos preparar nossos alunos para pensar criticamente, questionar o status quo e, principalmente, reconhecer e combater injustiças. E essa missão começa conosco, com a coragem de enfrentar nossos próprios preconceitos e trabalhar ativamente para superá-los.

A educação é a chave para a transformação social, e essa transformação só será possível quando nos dispusermos a olhar para dentro, reconhecer nossas falhas e lutar por um mundo onde todos tenham as mesmas oportunidades para existir. Que sejamos, então, professores não apenas de nossas disciplinas, mas de humanidade.

** Eduardo Machado é filósofo e professor especialista de Filosofia, licenciado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM

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