Quando o força isola
Há uma dignidade silenciosa em pagar as próprias contas, resolver os próprios problemas, enfrentar as próprias tempestades.

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiAprendemos cedo que ser forte é não precisar de ninguém. Que independência é sinônimo de sucesso. Que dar conta de tudo sozinha é motivo de orgulho. E, de fato, é. Há uma dignidade silenciosa em pagar as próprias contas, resolver os próprios problemas, enfrentar as próprias tempestades.
Mas ninguém nos conta que a independência, quando vira armadura, pesa.
No começo ela encaixa bem. Protege das decepções, das promessas quebradas, dos abandonos antigos. Aprende-se a não criar expectativas, a não pedir favores, a não demonstrar fraqueza. Aprende-se a responder “deixa que eu faço” antes mesmo que alguém termine a frase.
Funciona. Sobrevive-se. Só que, aos poucos, essa força começa a custar caro. A agenda está cheia, a vida organizada, as metas cumpridas. Mas há um silêncio estranho no fim do dia. Um cansaço que não é só físico. Uma sensação de estar sempre em alerta, como se baixar a guarda fosse perigoso demais.
A armadura protege, sim. Mas também isola. Ela impede que a ajuda chegue. Porque, para alguém ajudar, é preciso admitir que se precisa. E isso, para quem construiu a própria identidade em cima da autonomia, parece quase uma derrota.
Só que não é. A verdadeira maturidade emocional não está em fazer tudo sozinha. Está em reconhecer limites sem se sentir menor por isso. Está em confiar que dividir o peso não diminui a força, apenas distribui melhor a carga. Está em entender que interdependência não é fraqueza, é escolha consciente.
Pedir ajuda exige coragem. Muito mais do que resolver tudo em silêncio. Exige olhar para alguém e dizer: “Hoje não dou conta.” Exige permitir que vejam o cansaço, a dúvida, a fragilidade. Exige aceitar que não é preciso ser a rocha o tempo todo. E, nesse momento, algo muda.
Quando se abre espaço para o outro entrar, a vida ganha textura. As conversas ficam mais verdadeiras. O abraço demora um pouco mais. A parceria deixa de ser formalidade e vira apoio real. Descobre-se que conexão não é dependência; é troca. Compartilhar o peso não significa abandonar a força. Significa humanizá-la.
É hora de soltar um pouco essa armadura. Não jogá-la fora, mas afrouxar as fivelas. Permitir que alguém segure uma das pontas da rotina, das preocupações, dos sonhos. Permitir que alguém cuide de você também. Porque viver a plenitude da conexão é isso: confiar que não é preciso atravessar tudo sozinho.
E você? Consegue se permitir essa vulnerabilidade? A resposta para essa pergunta pode ser o primeiro passo para uma liberdade mais leve.
*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral, publicado pela Editora Dialética. É mestre em Ciências da Religião, jornalista e psicólogo. Atualmente, é Vigário Episcopal para a Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, no bairro Independência, em Cachoeiro de Itapemirim. É membro das Academias Iunense e Cachoeirense de Letras.
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