Quando os dias eram maiores
Houve um tempo em que os dias eram maiores. Uma tarde cabia inteira entre o almoço, após a volta da Escola e o chamado de dona Lina na porta: “Está na hora de entrar.”

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva
Houve um tempo em que os dias eram maiores. Uma tarde cabia inteira entre o almoço, após a volta da Escola e o chamado de dona Lina na porta: “Está na hora de entrar.” Nesse intervalo, dava para correr, inventar estórias, ralar o joelho e ainda olhar as nuvens, sem saber que aquilo se chamava não ter pressa.
Na infância, o relógio parecia andar diferente. As férias eram quase eternas. O aniversário seguinte demorava uma vida para chegar. Depois, alguma coisa aconteceu com o tempo. Os anos começaram a passar depressa. O Natal voltou antes que guardássemos as lembranças do anterior. Janeiro virou junho, junho virou dezembro. Os cabelos embranqueceram, algumas pessoas partiram, outras ficaram apenas na lembrança. E começamos a repetir uma frase que nunca dizíamos quando crianças: “Não tenho tempo.”
Mas basta um cheiro de bolo, a chuva batendo no telhado ou uma música antiga para alguma porta se abrir. Por alguns segundos, estamos outra vez naquele quintal. A casa parece maior. O mundo, mais simples. Quase podemos ouvir vozes que o tempo levou e sentir a presença de quem nos fazia acreditar que estávamos protegidos.
Então compreendemos: não são os brinquedos que fazem falta. Nem as férias intermináveis. Sentimos saudade de quem éramos quando ainda tínhamos tempo.
Não podemos voltar à infância. Essa estrada só existe na memória. Mas, de vez em quando, a vida nos devolve um pequeno pedaço dela. E, quando isso acontecer, convém não ter pressa.
Pode ser aquela criança, ainda guardada dentro de nós, pedindo apenas mais alguns minutos antes de dona Lina chamar para entrar.
*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral – Editora Dialética. É Mestre em Ciências da Religião, Jornalista e Psicólogo. Atualmente é Vigário Episcopal para Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e Pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, bairro Independência, Cachoeiro de Itapemirim.
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