Reformar sem engenheiro é economia ou risco disfarçado?
A NBR 16280 também exige documentação técnica como plano de reforma, memorial descritivo e registro de responsabilidade.

Por Eng. Filipe Machado
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiQuem já passou pela experiência de reformar um apartamento, seja como morador, síndico ou administrador, sabe que a obra pode facilmente sair do controle. Atrasos, custos que aumentam sem explicação, infiltrações que surgem após poucos meses, conflitos com vizinhos e até riscos à segurança da edificação são situações mais comuns do que se imagina. Na maioria dos casos, o problema não está na execução em si, mas na ausência de planejamento técnico adequado.
Reformar um apartamento hoje não é apenas trocar revestimentos ou abrir espaços. Os edifícios são sistemas complexos compostos por estrutura, instalações elétricas e hidráulicas, impermeabilização e elementos de segurança. Qualquer intervenção mal planejada pode afetar não apenas a unidade, mas todo o prédio. Foi para estabelecer controle sobre esse tipo de obra que a ABNT criou a NBR 16280, norma que regulamenta reformas em edificações e exige planejamento, documentação e acompanhamento por profissional habilitado.
O engenheiro entra exatamente onde o risco começa. Ele identifica o que pode ou não ser alterado, avalia paredes estruturais, vigas, lajes e sistemas que não admitem cortes ou remoções. Sem essa análise, uma decisão aparentemente simples pode comprometer a estabilidade da edificação. Além disso, o engenheiro define métodos corretos de execução, especifica materiais, compatibiliza instalações e orienta a sequência da obra, evitando improvisos que normalmente geram retrabalho e desperdício.
Existe também o fator financeiro. Muitos acreditam que contratar engenheiro aumenta o custo da reforma. Na prática, o que encarece uma obra são erros de execução, compras desnecessárias de materiais, correções posteriores, infiltrações recorrentes e disputas com vizinhos ou com o condomínio. O planejamento técnico reduz incertezas, traz previsibilidade orçamentária e transforma uma obra que poderia ser uma aposta em um processo controlado.
A NBR 16280 também exige documentação técnica como plano de reforma, memorial descritivo e registro de responsabilidade. Isso protege o morador e o síndico, pois comprova que a obra seguiu critérios técnicos e legais. Se surgir algum problema futuro, existe rastreabilidade das decisões e responsabilidade profissional definida, evitando que toda a culpa recaia sobre o proprietário.
Há ainda a responsabilidade civil. Se uma reforma causar dano a áreas comuns ou a apartamentos vizinhos, o morador responde financeiramente. Quando há acompanhamento técnico, os riscos diminuem e há respaldo profissional para orientar, prevenir e responder tecnicamente a qualquer questionamento.
No final, a pergunta não é se vale a pena contratar um engenheiro. A pergunta real é quanto custa corrigir uma reforma mal planejada, reparar danos a terceiros, correr riscos estruturais ou lidar com a desvalorização de um patrimônio.
Reformar é intervir em um sistema complexo. Sistemas complexos não admitem improviso. Engenharia não é custo adicional. É segurança, economia no longo prazo e proteção ao patrimônio.
*** Filipe Machado é reconhecido pela experiência em perícias, auditorias, projetos e consultorias de engenharia. Formado em Engenharia Civil e Ambiental, acumula mais de 14 anos de atuação no mercado, tendo trabalhado em obras, avaliações técnicas, diagnósticos prediais, gestão de manutenção e suporte a condomínios e empresas. É também autor de três livros sobre carreira, mercado de trabalho e desenvolvimento profissional para engenheiros e estudantes da área tecnológica. Atualmente ocupa o cargo de Diretor-Geral da Mútua-ES, braço assistencial do Sistema Confea/Crea.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
