Caminhões de rochas seguem matando nas estradas do Sul do ES
Acidentes com carretas carregadas de granito se repetem, expõem falhas na fiscalização e ampliam riscos nas rodovias da região.

Os acidentes envolvendo caminhões e carretas carregadas com blocos ou chapas de rochas deixaram de ser exceção e passaram a compor uma rotina trágica nas rodovias do Sul do Espírito Santo. Basta acompanhar o noticiário para perceber que, em muitos desses casos, o desfecho inclui mortes, interdições prolongadas e famílias destruídas.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiAs ocorrências se repetem principalmente nas BRs que cortam a região Sul e nas rodovias estaduais. Veículos pesados, com cargas de alto peso e difícil estabilização, tombam, colidem ou perdem o controle em trechos sinuosos, mal conservados ou sobrecarregados pelo tráfego intenso. Ainda assim, pouco se avança no debate público sobre responsabilidade, fiscalização e prevenção.
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Caminhões de rochas operam sem fiscalização efetiva
O problema se agrava quando se observa a ausência de dados consolidados. Entidades representativas do setor, como Sindimármore, Sindirochas e Centrorochas, não possuem poder de fiscalização. Como resultado, não há estatísticas oficiais organizadas pelo próprio setor sobre acidentes, mortes ou reincidência envolvendo esse tipo de transporte.
Nesta sexta-feira (23), um acidente envolvendo uma carreta que transportava bloco de granito, um caminhão e uma motocicleta deixou duas pessoas feridas. A ocorrência reforça a preocupação com esse tipo de transporte na BR 101 Sul. Isso porque há menos de um mês, em 29 de dezembro, um acidente semelhante matou três pessoas na rodovia, em Iconha. Na ocasião, o bloco de granito caiu sobre um caminhão carregado com abacaxi.
Essa lacuna cria um cenário preocupante. Sem números claros, o problema se dilui. Sem dados, não há pressão efetiva por mudanças. E sem mudanças, os acidentes continuam acontecendo. Enquanto isso, motoristas profissionais seguem expostos, assim como condutores de veículos menores, ciclistas e pedestres que dividem as rodovias.
Além disso, o debate raramente avança para questões estruturais. Fala-se pouco sobre excesso de carga, condições dos veículos, jornada dos motoristas ou adequação das rodovias para esse tipo de transporte. Quando o assunto surge, ele logo desaparece após mais uma tragédia anunciada.
É preciso romper esse ciclo. As rodovias do Sul do Espírito Santo não podem continuar sendo palco de acidentes fatais envolvendo cargas de rochas como se isso fosse um efeito colateral inevitável da atividade econômica. O setor é estratégico para o Estado, mas o crescimento não pode caminhar dissociado de responsabilidade e segurança.
Sem fiscalização efetiva, sem transparência de dados e sem um debate sério, novas mortes continuarão ocorrendo. E, mais uma vez, elas serão tratadas apenas como estatística isolada, quando, na verdade, fazem parte de um problema estrutural que insiste em ser ignorado.
A reportagem entrou em contato com a Polícia Rodoviária Federal, o Sindimármore, o Sindirochas e a Centrorochas. No entanto, as instituições informaram que não possuem dados específicos que permitam contabilizar acidentes envolvendo caminhões ou carretas carregadas com blocos ou chapas de rochas.