Carmelo São José celebra 28 anos de fé e oração em Cachoeiro
A história da presença carmelita na Diocese começou a partir de um pedido do então bispo diocesano, Dom Luiz Mancilha Vilela, ss.cc.

Por quase três décadas, um mosteiro escondido entre as montanhas de Soturno, em Cachoeiro de Itapemirim, tornou-se um dos centros de espiritualidade mais discretos e significativos da Diocese. Instalado na localidade de Salgadinho, no distrito de Soturno, a cerca de 10 quilômetros do Centro da cidade, o Carmelo São José é um espaço onde a vida segue em silêncio, oração, trabalho e fraternidade — em contraste com o ritmo acelerado do mundo exterior.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiA história da presença carmelita na Diocese começou a partir de um pedido do então bispo diocesano, Dom Luiz Mancilha Vilela, ss.cc. Segundo a madre superiora, irmã Maria Salete de Cristo Rei, de Nossa Senhora do Monte Carmelo, foi ele quem solicitou à associação dos Carmelos a fundação de uma casa de oração contemplativa em Cachoeiro de Itapemirim.
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“Dom Luiz Mancilla, o bispo fundador da época, pediu o Carmelo, solicitou na nossa associação uma casa de oração contemplativa na Diocese”, recorda a religiosa.
Após o pedido, as irmãs do Carmelo de Fortaleza iniciaram um período de oração e discernimento. Dali saiu o grupo fundador, formado por cinco religiosas: irmã Maria Salete, irmã Áurea Tereza, conhecida como Terezinha do Menino Jesus, irmã Cecília, irmã Maria de Lourdes e irmã Teresa Cristina. Antes de chegarem definitivamente a Cachoeiro, elas passaram por Vitória, onde foram acolhidas no Carmelo de Nazaré.
A fundação oficial aconteceu em 20 de junho de 1998, com uma missa celebrada na Catedral de São Pedro, presidida por Dom Luiz Mancilha. A celebração reuniu as irmãs fundadoras, religiosas vindas de outros Carmelos, representantes da associação, carmelitas, o clero diocesano e muitos fiéis.
“Foi uma missa muito linda. A gente via vivamente a felicidade de Dom Luiz, todo o clero também reunido. Foi uma presença muito celestial na nossa humanidade, que estava ali começando essa obra”, relata irmã Maria Salete.
Naquele dia, o Carmelo recebeu também o nome de São José, a pedido do próprio bispo. Para a irmã, a escolha carregava um significado especial, ligado não apenas à devoção do fundador, mas também à história da doação do terreno onde o mosteiro seria construído. O espaço foi oferecido pela família Zozanelli, especialmente por José Antônio e Verônica, benfeitores lembrados com gratidão pela comunidade.
Antes de ocupar o atual mosteiro, as carmelitas viveram em uma casa simples, alugada, próxima ao terreno doado. O imóvel era pequeno para quem vinha de um Carmelo maior, com cerca de 20 irmãs, mas foi ali que a vida comunitária começou a tomar forma.
“Nós saímos de um Carmelo muito grande, de um convívio de vinte irmãs, e viemos para um lugar pequeno, onde éramos só nós cinco. Foi dessa maneira que começamos a nossa vida comunitária”, conta a madre.
Para as carmelitas, porém, a fundação do Carmelo não dependia apenas da construção física. O sinal mais forte foi a presença de Jesus Eucarístico. Depois da missa fundacional, o Santíssimo Sacramento foi levado em procissão até a casa provisória e entronizado no local onde as irmãs passariam a viver.
“Quando ele é entronizado verdadeiramente na casa onde a gente vai morar, ali o Carmelo está profundamente fundado, porque ele é o fundador”, explica irmã Maria Salete.
Na mesma ocasião, Dom Luiz realizou um gesto simbólico que marcou a memória das religiosas e dos fiéis. Ao estabelecer a clausura, impôs as mãos sobre cada uma das irmãs e, depois de conduzi-las para dentro, fechou a porta e colocou a chave no bolso. O gesto causou estranhamento em algumas pessoas, mas, para a comunidade, tinha outro sentido.
“A chave dentro do coração queria dizer que o Carmelo também era dele e saiu do coração dele”, interpreta a irmã.
A construção do mosteiro definitivo começou a ser sonhada desde os primeiros passos da comunidade. Um ano depois da fundação, foi lançada a pedra fundamental no terreno de Salgadinho, em uma missa campal celebrada quando ainda não havia nenhuma construção no local.
“Era só o espaço, o campo, o verde. Teve a Santa Missa campal, o lançamento da pedra fundamental, a bênção de Dom Luiz, o clero e muita gente. Foi muito bonita a participação do povo”, recorda.
Como o terreno ficava próximo, elas acompanhavam de perto o andamento das obras. A primeira parte construída incluía a enfermaria e os blocos de dormitórios. A enfermaria precisou ser adaptada para funcionar como portaria, enquanto as missas passaram a ser celebradas na varanda, por decisão de Dom Luiz, que queria mostrar ao povo que ainda faltava a capela.
A construção avançou em etapas, com a ajuda de muitas mãos. Paróquias, famílias, grupos de leigos e benfeitores da Diocese se mobilizaram para tornar possível a obra. A Rádio Diocesana também ajudou na divulgação das necessidades do Carmelo, e grupos de senhoras foram encarregados por Dom Luiz de acompanhar a manutenção cotidiana da comunidade, especialmente na alimentação.
“O Carmelo é fruto de muitas doações da nossa Diocese, das paróquias, de muitos leigos, muitas famílias. Dom Luiz deixou tudo muito organizado. Muita gente se movimentou”, afirma a madre.
Um dos momentos decisivos para a conclusão da capela veio por meio de uma doação testamentária. Dona Inês Cola, ao falecer, deixou registrado o desejo de que fosse concluída a construção da capela do Mosteiro do Carmelo São José. Segundo irmã Maria Salete, esse gesto permitiu um grande avanço na obra e deu à comunidade um espaço mais adequado para a liturgia, tanto para as irmãs quanto para o povo.
Hoje, o Carmelo São José abriga 11 religiosas. Ao longo dos anos, muitas jovens passaram pela comunidade em experiências vocacionais. Algumas seguiram outros caminhos; outras permaneceram. A madre destaca com alegria a presença de vocações nascidas na própria Diocese, como irmã Miriam, natural de Iúna, que fez os votos perpétuos; irmã Maria Vitória, de Piúma, que professou os votos simples; e irmã Maria Teresinha, que recentemente também fez seus votos simples — votos temporários de castidade, pobreza e obediência, professados por um novo membro da ordem após o período de noviciado.
A vida no Carmelo é marcada por uma rotina intensa de oração. O dia começa cedo: às 5h10 em determinados períodos e às 4h40 no verão. Desde o despertar até o fim do dia, as horas são organizadas pela liturgia, pelo trabalho, pela alimentação, pelo silêncio e pela convivência fraterna. À noite, por volta das 21h, as religiosas encerram a oração litúrgica e se recolhem.
“Nossa vida é toda permeada pela oração. Desde que despertamos até o final do dia, tudo é marcado pela oração litúrgica, a oração das horas”, explica irmã Maria Salete.
Entre os momentos de oração, há também o trabalho manual. As monjas produzem velas artesanais, restauram imagens sacras e realizam outras atividades que ajudam na manutenção da comunidade. Para elas, o trabalho não está separado da espiritualidade, mas integrado à missão contemplativa.
A vida fraterna também ocupa lugar essencial. A rotina inclui momentos de recreio, em que as irmãs podem conversar, trabalhar juntas e fortalecer os laços comunitários. Segundo a madre, esse equilíbrio entre silêncio, oração e convivência expressa o próprio espírito do Carmelo.
“O termômetro para a gente saber se está rezando bem é se a gente vive bem a nossa vida fraterna. É uma vida de compreensão, paciência umas com as outras, fraternidade, alegria e ajuda mútua”, afirma.
Apesar da clausura, o Carmelo mantém uma relação próxima com a população. Fiéis de Cachoeiro e de outras cidades procuram o mosteiro para rezar, participar das missas, pedir oração, buscar aconselhamento e encontrar um espaço de paz. A madre reconhece que alguns Carmelos são mais reservados, mas explica que a comunidade de Soturno desenvolveu uma forma própria de acolher.
“Todo Carmelo acolhe muito bem as pessoas. Mas eu creio que o nosso jeito de ser nordestino, essa origem que a gente traz, também nos fez fraternas e acolhedoras. E nós nos identificamos muito com vocês aqui da Diocese, porque vocês também são muito acolhedores”, diz.
A clausura, para as carmelitas, não significa isolamento sem sentido, mas entrega. A escolha envolve renúncia, silêncio e permanência, mas é vivida como liberdade interior. Até mesmo os incômodos da rotina, como o calor do hábito religioso, são oferecidos como parte da missão espiritual.
“A nossa vida é toda para a Igreja e também para a conversão de todos aqueles que necessitam. Qualquer incômodo que a gente possa passar, mesmo com relação ao calor, a gente oferece”, relata a irmã.
Entre os acontecimentos mais recentes da história do Carmelo, está a visita das relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus, entre os dias 6 e 9 de julho de 2024. A presença das relíquias, que atraíram fiéis de Cachoeiro e de cidades vizinhas, transformou o mosteiro em ponto de peregrinação e renovação espiritual, reforçando a ligação da comunidade com a espiritualidade carmelita.
Ao olhar para a caminhada do Carmelo São José, irmã Maria Salete resume a história com gratidão. Ela recorda que as primeiras irmãs deixaram Fortaleza, uma terra conhecida, para viver em um lugar novo, entre pessoas que ainda não conheciam. Com o passar dos anos, porém, Cachoeiro deixou de ser terra estranha e se tornou casa.
“Nós deixamos uma terra que era nossa, um chão onde a gente pisava com familiaridade, para vir para uma terra estranha, para um povo que não conhecíamos. Hoje, a gente não pode dizer mais assim. A gente pisa no chão que é nosso, numa terra que é nossa, num povo que também é nosso”, afirma.
Para o futuro, a esperança da comunidade está no despertar de novas vocações. A madre lembra que o Carmelo ainda tem espaço para acolher jovens dispostas a viver a beleza da vida contemplativa e a dar continuidade ao carisma em Cachoeiro de Itapemirim.
Ela resume essa vocação com uma imagem bíblica: o grão de trigo que cai na terra, morre e produz fruto. Para irmã Maria Salete, a vida no Carmelo é esse morrer cotidiano, vivido na oração, no silêncio, no trabalho e na entrega.
“É preciso só uma coisa para se aproximar do Carmelo e viver essa vocação: apaixonar-se por Jesus. Sem essa paixão, não é possível. Tem que ser uma paixão grande, ardorosa, fervorosa. Aí, sim, é capaz de dar a vida, é capaz de dar tudo”, conclui.
Ação de Graças pelos 28 anos de fundação
E para marcar esta história de fé e gratidão, será celebrada neste sábado, dia vinte e oito de junho, às sete horas da manhã, uma missa em ação de graças na capela do Carmelo São José, em Salgadinho, distrito de Soturno.
A celebração será presidida pelo bispo diocesano de Cachoeiro de Itapemirim, Dom Luiz Fernando Lisboa, CP, e reunirá a comunidade carmelita, fiéis, amigos e devotos que acompanham a caminhada do mosteiro ao longo dos anos.
Serviço
Missa em ação de graças pelo Carmelo São José
Data: sábado, 20 de junho
Horário: 7 horas da manhã
Local: Capela do Carmelo São José, em Salgadinho, distrito de Soturno, Cachoeiro de Itapemirim
Preside: Dom Luiz Fernando Lisboa, CP, bispo diocesano
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