Antes de existir "farmar aura", o ser humano já fazia exatamente isso
Há alguns dias ouvi um adolescente dizer que precisava "farmar aura" antes de sair de casa. A expressão, para quem não frequenta o vocabulário da internet, pode soar estranha.

Por Eduardo Machado
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiHá alguns dias ouvi um adolescente dizer que precisava “farmar aura” antes de sair de casa. A expressão, para quem não frequenta o vocabulário da internet, pode soar estranha. Mas bastou ouvi-la para perceber algo curioso: a geração Z não inventou um novo comportamento. Inventou apenas uma nova palavra para nomear uma velha necessidade humana.
“Farmar aura” significa construir uma presença. É criar uma atmosfera ao redor de si que transmita confiança, estilo, respeito, magnetismo ou admiração. Para isso, vale escolher a roupa certa, montar uma playlist, tirar uma foto cuidadosamente pensada, treinar a postura, editar um vídeo ou simplesmente caminhar como se o mundo estivesse observando.
A primeira reação costuma ser rir da expressão. A segunda deveria ser reconhecer que fazemos exatamente a mesma coisa há séculos.
O estudante que escuta sempre a mesma música antes da prova estava farmando aura.
O atleta que bate no peito antes da competição estava farmando aura.
O candidato que veste seu melhor terno para uma entrevista estava farmando aura.
O apaixonado que passa perfume, ensaia o que vai dizer e se olha cinco vezes no espelho antes do encontro estava farmando aura.
Até aquele cafezinho tomado antes de enfrentar um dia difícil talvez seja, em alguma medida, uma forma de farmar aura.
O nome é novo. O comportamento é ancestral.
Na Antiguidade, guerreiros pintavam o rosto antes das batalhas. Não era apenas para intimidar o inimigo. Era, sobretudo, para convencer a si mesmos de que já não eram homens comuns. Haviam atravessado um limiar. O ritual transformava o estado de espírito antes mesmo de transformar o resultado da batalha.
Toda cultura criou seus próprios rituais para preparar o indivíduo diante do desconhecido. O ser humano sempre precisou de pequenas cerimônias para enfrentar grandes desafios.
A filosofia compreendeu isso muito antes da internet.
Aristóteles dizia que nos tornamos aquilo que repetidamente fazemos. A coragem não aparece como um sentimento mágico; ela nasce do exercício. Muitas vezes, o ritual é justamente o primeiro passo dessa prática. Antes de agir corajosamente, o sujeito precisa acreditar, ainda que por alguns instantes, que é capaz.
Nietzsche talvez enxergasse nesse fenômeno outra dimensão. Para ele, viver também é uma obra de criação. Não apenas pensamos; encenamos, experimentamos, moldamos quem somos por meio dos nossos hábitos, gestos e estilos. A pergunta que ele provavelmente faria não seria se devemos construir uma imagem, mas se essa imagem nos fortalece ou apenas nos aprisiona.
Michel Foucault chamava essas práticas de “tecnologias de si”: exercícios pelos quais transformamos nossa maneira de existir. Meditar, escrever um diário, praticar exercícios, estudar, rezar ou cultivar determinados hábitos são formas de trabalhar sobre si mesmo. Talvez fosse inevitável que, em nossa época, playlists, estéticas digitais e perfis nas redes sociais também se tornassem tecnologias de construção da subjetividade.
A psicanálise, porém, acrescenta uma camada ainda mais profunda.
Ela nos lembra que nenhum ritual produz apenas uma imagem para os outros. Antes de convencer o mundo, precisamos convencer a nós mesmos.
Quando alguém coloca uma música antes de enfrentar uma conversa difícil, essa música não altera a realidade. Ela reorganiza o mundo interno. Quando alguém veste uma roupa específica para uma apresentação, o tecido não produz competência. Mas pode diminuir a ansiedade. Quando um corredor segue rigorosamente seu ritual antes da largada, ele não altera o percurso; altera sua relação com o percurso.
Os objetos funcionam como mediadores da angústia.
É por isso que tantas pessoas dizem precisar de um café para começar o dia, de um cigarro para aliviar a tensão, de uma taça de vinho para conversar melhor ou de uma caminhada para colocar a cabeça no lugar. Nenhum desses elementos resolve o problema em si. Eles reorganizam, simbolicamente, a posição do sujeito diante do problema.
Em outras palavras, farmar aura nunca foi apenas parecer. Sempre foi, antes de tudo, tentar sentir.
Mas existe uma diferença importante entre ontem e hoje.
Durante boa parte da história, os rituais preparavam a ação. Hoje, muitas vezes, eles substituem a ação.
Gastamos mais tempo montando o ambiente de estudo do que estudando. Organizamos a mesa, escolhemos a playlist perfeita, compramos o caderno ideal, publicamos uma foto mostrando a rotina produtiva… e, quando percebemos, a energia foi consumida pela preparação.
A aura tornou-se mais importante que a experiência.
As redes sociais potencializaram esse deslocamento. Antes, o ritual era íntimo. Hoje, ele é frequentemente performado diante de uma plateia invisível. Já não basta sentir-se preparado; é preciso que todos vejam que estamos nos preparando. A imagem deixa de servir à vida e passa, muitas vezes, a substituí-la.
Talvez esse seja um dos retratos mais precisos do nosso tempo.
A geração Z não inventou a necessidade de construir confiança. Também não inventou os rituais que antecedem os desafios. Ela apenas revelou, com uma expressão curiosa, algo que atravessa a história da humanidade: ninguém enfrenta o mundo apenas com argumentos. Levamos conosco símbolos, hábitos, objetos, músicas, roupas, gestos e pequenas cerimônias que nos ajudam a suportar a incerteza de existir.
O verdadeiro problema, portanto, não é farmar aura.
É esquecer que a aura deveria ser apenas a porta de entrada para a vida, nunca um substituto dela.
Porque, no fim das contas, nenhuma playlist vence uma prova. Nenhum filtro constrói uma carreira. Nenhum vídeo produz caráter. Essas coisas podem nos colocar em movimento, mas quem caminha continua sendo o sujeito.
E talvez a filosofia nos lembre justamente disso: a imagem pode abrir portas, mas somente uma vida bem vivida é capaz de sustentá-las abertas.
** Eduardo Machado é filósofo, professor e psicanalista.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
