Por que os jovens leem cada vez menos?
Quando a leitura diminui, não perdemos apenas os livros. Perdemos uma forma de estar sozinhos, pensar demoradamente e conversar com aquilo que ainda não sabemos.

Por Eduardo Machado
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiQuando a leitura diminui, não perdemos apenas os livros. Perdemos uma forma de estar sozinhos, pensar demoradamente e conversar com aquilo que ainda não sabemos.
Há uma cena que se tornou comum em nossas escolas: um professor indica um texto, pede que os alunos leiam algumas páginas e, poucos minutos depois, começa a ouvir a pergunta:
— Mas é para ler tudo?
A pergunta parece banal. Talvez seja apenas uma demonstração de preguiça. Talvez seja cansaço. Talvez seja falta de hábito.
Mas talvez exista algo maior acontecendo.
Talvez uma geração inteira esteja perdendo, pouco a pouco, a capacidade de permanecer diante de um texto.
Não se trata de dizer que os jovens não leem absolutamente nada. Eles leem mensagens, comentários, legendas, notícias, conversas, memes, instruções, posts. Passam horas diante de palavras.
O problema é outro.
Eles leem cada vez menos aquilo que exige permanência.
E essa diferença é fundamental.
Ler uma mensagem é diferente de ler um romance. Ler uma legenda é diferente de acompanhar um argumento. Passar os olhos por uma notícia é diferente de entrar lentamente no pensamento de alguém que viveu há cem, duzentos ou dois mil anos.
A leitura profunda exige uma coisa que se tornou rara: tempo.
E talvez seja justamente o tempo que nossa época esteja perdendo.
Vivemos submetidos à lógica da velocidade. Tudo precisa ser rápido: a informação, a resposta, o entretenimento, a comunicação, o aprendizado. Se um vídeo demora a começar, pulamos. Se um texto parece longo, abandonamos. Se uma ideia exige esforço, procuramos uma explicação mais simples.
Acostumamo-nos a perguntar:
“Qual é o resumo?”
Antes mesmo de perguntar:
“O que isso quer dizer?”
Essa mudança parece pequena, mas possui consequências profundas.
Porque a leitura não é apenas uma maneira de obter informação. Ela é uma maneira de construir interioridade.
Quando lemos um livro, não estamos simplesmente recebendo palavras. Estamos criando dentro de nós um espaço onde aquelas palavras podem permanecer.
Um personagem nos acompanha durante dias. Uma frase volta à memória enquanto tomamos banho. Uma ideia nos incomoda durante uma conversa. Uma passagem de um romance nos faz compreender algo sobre nós mesmos que não sabíamos explicar.
É isso que uma leitura profunda faz.
Ela continua acontecendo depois que fechamos o livro.
Por isso, talvez a crise da leitura seja também uma crise da interioridade.
Interioridade é a capacidade de ter uma vida interior: pensamentos que não precisam ser imediatamente publicados, sentimentos que podem ser elaborados antes de serem expostos, perguntas que podem permanecer sem resposta durante algum tempo.
Mas fomos educados por uma cultura que nos estimula constantemente a exteriorizar tudo.
O que você está fazendo?
O que você está pensando?
O que você está sentindo?
Onde você está?
O que você acha?
Mostre.
Publique.
Responda.
Comente.
A leitura profunda faz quase o movimento contrário.
Ela nos convida a ficar quietos.
A entrar em outro mundo.
A escutar uma voz que não é a nossa.
A suportar alguns minutos — ou algumas horas — sem precisar produzir nada para ninguém.
Talvez seja justamente por isso que ler tenha se tornado tão difícil.
Não porque os jovens sejam menos inteligentes.
Não porque tenham perdido a capacidade de pensar.
Mas porque estão crescendo em um ambiente que disputa permanentemente sua atenção.
E atenção é o primeiro território da leitura.
Não conseguimos compreender um texto enquanto nossa atenção está sendo interrompida a cada poucos segundos.
Não conseguimos acompanhar uma argumentação se precisamos de estímulos constantes.
Não conseguimos entrar em um romance se aprendemos a abandonar qualquer experiência assim que ela deixa de produzir recompensa imediata.
A questão, portanto, não é simplesmente “como fazer os jovens lerem mais?”.
Talvez precisemos perguntar:
como ensiná-los novamente a prestar atenção?
A escola tem um papel decisivo nessa tarefa.
Mas precisa tomar cuidado para não transformar a leitura em mais uma obrigação mecânica.
Quando um livro é apresentado apenas como aquilo que “vai cair na prova”, a literatura perde parte de sua força. Quando o estudante precisa preencher uma ficha sobre personagens, cenário, tempo e características da obra, pode até aprender conteúdos sobre literatura sem necessariamente experimentar o que significa ler.
É possível estudar um romance sem jamais encontrar-se com ele.
E esse é um dos grandes paradoxos da escola.
Às vezes, conseguimos ensinar tudo sobre um livro e, ainda assim, não conseguimos fazer alguém gostar de ler.
Talvez porque a leitura precise recuperar uma dimensão de encontro.
Um livro é o encontro com uma consciência que não está diante de nós.
Quando lemos Machado de Assis, Clarice Lispector, Dostoiévski, Graciliano Ramos, Virginia Woolf ou qualquer outro grande escritor, não estamos apenas estudando autores. Estamos encontrando outras maneiras de perceber a existência.
A literatura nos permite viver vidas que não são nossas.
Sentir o mundo por olhos diferentes.
Entrar em conflitos que nunca enfrentamos.
Compreender sentimentos que talvez não soubéssemos nomear.
A leitura amplia nossa experiência humana.
E talvez seja essa uma de suas funções mais importantes.
Um jovem que lê não se torna automaticamente uma pessoa melhor. Livros não são remédios morais.
Mas quem lê profundamente aprende algo precioso: o mundo pode ser maior do que aquilo que aparece imediatamente diante de seus olhos.
Essa descoberta é profundamente filosófica.
Platão já compreendia que educar é deslocar o olhar. É ajudar alguém a perceber que aquilo que parecia ser toda a realidade era apenas uma parte dela.
Ler também é deslocar o olhar.
É sair, por alguns instantes, da própria perspectiva.
Talvez por isso uma sociedade que lê menos precise se preocupar não apenas com a quantidade de livros vendidos, mas com a qualidade de sua capacidade de imaginar o outro.
Porque quem não consegue permanecer diante de uma página também pode encontrar dificuldades para permanecer diante de uma pessoa.
O outro também é complexo.
O outro também demora.
O outro também não cabe em uma frase.
Talvez exista aí uma relação que ainda não discutimos suficientemente: a crise da leitura pode ser também uma crise da escuta.
Ler é escutar alguém que não está presente.
E aprender a escutar exige exatamente aquilo que a cultura da velocidade tenta nos tirar: atenção, paciência e disposição para não responder imediatamente.
Por isso, defender a leitura entre os jovens não significa defender uma nostalgia do papel, dos livros antigos ou de um passado supostamente melhor.
Não precisamos escolher entre o livro e a tecnologia.
Precisamos ensinar que cada tecnologia serve a uma determinada forma de atenção.
Há momentos para o vídeo curto.
Há momentos para a mensagem rápida.
Há momentos para a pesquisa objetiva.
Mas também precisamos recuperar o momento em que não fazemos nada além de ler.
Sem notificações.
Sem pressa.
Sem a obrigação de transformar imediatamente aquilo que lemos em produtividade.
Porque nem toda leitura precisa servir para alguma coisa.
Algumas leituras existem simplesmente para nos tornar mais humanos.
Talvez seja essa a pergunta que deveríamos levar para nossas escolas, nossas casas e nossas bibliotecas:
o que estamos fazendo com o tempo interior dos nossos jovens?
Se eles nunca aprendem a ficar em silêncio, como poderão ouvir a própria consciência?
Se nunca aprendem a permanecer diante de uma ideia difícil, como poderão desenvolver pensamento crítico?
Se tudo precisa ser rápido, como poderão compreender aquilo que exige maturação?
E se toda experiência precisa ser compartilhada imediatamente, como poderão descobrir aquilo que só pode nascer dentro de nós?
A crise da leitura, no fundo, talvez não seja uma crise dos livros.
É uma crise da nossa relação com o tempo.
E recuperar a leitura pode significar algo muito maior do que aumentar o número de páginas lidas.
Pode significar devolver aos jovens o direito de ter uma vida interior.
Um lugar dentro de si onde o mundo possa entrar devagar.
Onde uma pergunta possa permanecer.
Onde uma história possa transformar alguma coisa.
E onde, por alguns minutos, ninguém precise responder absolutamente nada.
** Eduardo Machado é filósofo, professor e psicanalista.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
