O mito do esforço puro diante das desigualdades reais

Existem algumas frases que parecem inocentes até que começamos a observar com atenção aquilo que escondem.

Foto: Ilustrativa/Magnific

Por Eduardo Machado

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Existem algumas frases que parecem inocentes até que começamos a observar com atenção aquilo que escondem. “Quem quer, consegue”, “é só se esforçar”, “todo mundo tem as mesmas vinte e quatro horas” são exemplos de ideias que circulam com tanta naturalidade que acabam adquirindo a aparência de verdades indiscutíveis. Poucas crenças foram tão repetidas quanto a de que cada pessoa chega exatamente onde seu esforço foi capaz de levá-la.

Essa ideia é confortável, sobretudo para quem chegou. Ela transforma o sucesso em prova de merecimento e o fracasso em sinal de insuficiência pessoal, oferecendo uma explicação simples para uma sociedade profundamente desigual: quem venceu teria se esforçado mais; quem não venceu deveria ter feito melhor. É justamente nesse ponto que começa o problema.

A crítica à meritocracia não exige que neguemos a existência do esforço. Seria absurdo fazê-lo. Algumas pessoas estudam mais, trabalham mais, persistem mais, fazem escolhas difíceis e renunciam a muitas coisas para alcançar seus objetivos. O problema não está em reconhecer isso, mas em imaginar que o esforço possa ser analisado separadamente das condições nas quais ele acontece.

Ninguém se esforça no vazio. Todo esforço parte de algum lugar, e os lugares de onde partimos são profundamente diferentes.

Uma criança nasce em uma casa com livros, espaço para estudar e adultos capazes de acompanhá-la em sua trajetória escolar; outra cresce em uma casa na qual falta dinheiro, sobra preocupação e talvez sequer exista um ambiente minimamente tranquilo para a realização de uma tarefa. Uma pode dedicar a tarde aos estudos, enquanto outra precisa dividir seu tempo entre a escola, o trabalho e responsabilidades familiares que não escolheu. Mais tarde, colocamos as duas diante da mesma prova e afirmamos que, naquele momento, todos são iguais.

Mas não são.

A prova pode ser a mesma. O percurso até ela não foi.

É justamente essa diferença que o discurso meritocrático tende a apagar. Ele olha para o instante da chegada e trata como detalhe tudo aquilo que aconteceu antes, como se as desigualdades de origem deixassem de existir no momento em que as regras formais se tornam iguais.

No entanto, não escolhemos o lugar onde nascemos, a renda de nossos pais, a qualidade da escola que frequentaremos na infância, o bairro em que cresceremos, a existência ou não de livros em casa, nem grande parte das pessoas que exercerão influência decisiva sobre nossa formação. Antes mesmo de começarmos a fazer escolhas, muitas circunstâncias fundamentais já estão dadas.

Isso não significa que sejamos prisioneiros dessas condições, tampouco que a liberdade individual seja uma ilusão. Significa apenas reconhecer que a liberdade não acontece da mesma maneira para todos. A liberdade de quem dispõe de cinco caminhos possíveis não pode ser confundida com a liberdade daquele para quem resta apenas uma saída estreita. Dizer isso não é vitimismo; é simplesmente recusar a transformação da realidade em slogan motivacional.

A meritocracia se torna especialmente cruel quando transforma desigualdade em culpa. Se acreditamos que todos possuem, em essência, as mesmas condições e que o esforço é o principal responsável pelo resultado, então o fracasso só pode ser explicado como falha pessoal. Quem não conseguiu não se esforçou; quem não passou não estudou; quem não prosperou não trabalhou o suficiente; quem permaneceu pobre teria feito escolhas ruins.

Essa lógica parece rigorosa, mas é intelectualmente preguiçosa, porque dispensa a sociedade de formular perguntas incômodas. Não precisamos mais perguntar por que algumas escolas possuem bibliotecas, laboratórios, internet de qualidade e equipes completas, enquanto outras funcionam em condições precárias. Não precisamos perguntar por que alguns jovens chegam à universidade aos dezoito anos ao passo que outros, na mesma idade, já carregam responsabilidades financeiras de adultos. Também não precisamos investigar por que o lugar onde uma criança nasce continua influenciando tão fortemente suas possibilidades futuras.

Basta dizer que depende dela.

E assim, quase por encanto, problemas coletivos desaparecem, dando lugar a uma sociedade dividida entre indivíduos considerados vencedores e indivíduos considerados culpados.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais a meritocracia se tornou uma narrativa tão eficiente. Ela oferece aos privilegiados uma forma moralmente agradável de compreender o próprio privilégio. Em vez de pensar “eu tive oportunidades que outras pessoas não tiveram”, é muito mais confortável concluir “eu consegui porque mereci”.

E talvez tenha merecido. Talvez essa pessoa tenha estudado muito, trabalhado durante anos, feito sacrifícios e superado dificuldades reais. Reconhecer privilégios não significa apagar o esforço de ninguém, e esse é um ponto que precisa ser afirmado com clareza. Uma pessoa pode ter trabalhado intensamente e, ainda assim, ter contado com condições favoráveis que outras pessoas não tiveram.

Privilégio não é sinônimo de ausência de esforço. Muitas vezes, significa simplesmente a ausência de determinados obstáculos.

Essa distinção é essencial porque impede que o debate se transforme em caricatura. O objetivo não é negar conquistas individuais, mas compreender que esforço e oportunidade são coisas diferentes. Duas pessoas podem se empenhar de maneira semelhante e obter resultados muito distintos, não porque uma seja melhor do que a outra, mas porque parte de sua energia foi consumida por barreiras que apenas uma delas precisou enfrentar.

Na escola, essa realidade se torna especialmente visível. Um professor atento percebe rapidamente que os estudantes não chegam à sala de aula apenas com cadernos diferentes; chegam com mundos diferentes. Há quem volte para casa e encontre alguém perguntando como foi a aula, assim como há quem retorne para um ambiente em que o estudo precisa competir com obrigações domésticas, trabalho e preocupação financeira. Há quem tenha computador, internet estável e silêncio; há quem faça atividades pelo celular e divida o espaço com várias pessoas.

Essas diferenças não determinam completamente o futuro de um estudante, mas seria desonesto fingir que não têm importância.

Diante disso, dizer simplesmente que “vence quem mais se esforça” não é propriamente uma defesa da responsabilidade individual. Muitas vezes, é apenas uma recusa de enxergar.

Isso não significa, evidentemente, que a escola deva abandonar a exigência, a disciplina ou a responsabilidade. Pelo contrário. Esperar menos de um aluno porque ele é pobre, vulnerável ou enfrenta dificuldades não é inclusão; pode ser apenas outra forma de abandono. A escola precisa acreditar na capacidade dos estudantes e exigir deles compromisso com a própria formação.

Mas exigir não é o mesmo que fingir que todos conseguem responder às exigências a partir das mesmas condições.

É perfeitamente possível dizer a um estudante que ele precisa se dedicar e, ao mesmo tempo, perguntar do que ele precisa para conseguir se dedicar. Essas duas atitudes não se anulam. Na verdade, talvez somente quando aparecem juntas possamos falar de uma educação verdadeiramente humana.

A filosofia política oferece uma maneira interessante de pensar esse problema. John Rawls propôs uma experiência mental em que somos convidados a imaginar a construção das regras de uma sociedade sem saber antecipadamente qual lugar ocuparemos nela. Não sabemos se nasceremos ricos ou pobres, se teremos saúde ou alguma deficiência, em que família cresceremos, qual será nossa condição econômica ou quais oportunidades estarão disponíveis.

Que tipo de sociedade escolheríamos se houvesse a possibilidade real de nascermos entre aqueles que começam em piores condições?

Provavelmente seríamos muito mais cuidadosos na distribuição de oportunidades. É fácil defender uma sociedade baseada exclusivamente na competição quando imaginamos que estaremos entre aqueles que possuem os melhores recursos para competir. A justiça assume outro significado quando admitimos a possibilidade de nascer do outro lado.

Há ainda outra coisa que o discurso meritocrático prefere esquecer: nenhuma conquista é inteiramente individual. A ideia de alguém completamente “feito por si mesmo” talvez seja uma das grandes fantasias modernas.

Quem nos ensinou a falar? Quem nos alfabetizou? Quem cuidou de nós quando não conseguíamos cuidar de nós mesmos? Quem construiu as instituições que utilizamos, produziu os livros que lemos, formou os profissionais que nos atenderam, abriu portas, apresentou possibilidades ou acreditou em nós em algum momento decisivo?

Mesmo as trajetórias mais individuais são sustentadas por redes de relações que frequentemente desaparecem quando contamos a história do sucesso.

Talvez reconhecer isso nos torne um pouco menos arrogantes diante das próprias vitórias e um pouco menos cruéis diante das derrotas dos outros.

A crítica à meritocracia, portanto, não é uma defesa da preguiça, um ataque ao sucesso ou a afirmação de que todos deveriam chegar exatamente ao mesmo resultado. Trata-se de algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil de aceitar: resultado e merecimento não são sinônimos.

Quem chegou mais longe não é necessariamente mais digno. Quem possui mais não é necessariamente melhor. Quem não conseguiu não é necessariamente menos esforçado. A posição social de uma pessoa não pode funcionar como certificado moral.

Quando uma sociedade começa a associar valor humano ao lugar que cada indivíduo conseguiu ocupar, a competição econômica rapidamente se transforma em hierarquia moral. O vencedor passa a imaginar que sua posição prova sua superioridade; o derrotado aprende a interpretar a própria condição como vergonha. Nesse processo, a desigualdade deixa de parecer um problema social e começa a parecer uma consequência justa da diferença entre pessoas que “mereceram” destinos distintos.

É por isso que a meritocracia precisa ser criticada com firmeza quando aparece como explicação para uma sociedade desigual. Se os pontos de partida são profundamente diferentes, premiar apenas a chegada pode não produzir justiça; pode simplesmente transformar desigualdades anteriores em desigualdades legitimadas.

A questão verdadeiramente importante, portanto, não é saber se o esforço deve ser valorizado. Evidentemente deve. A pergunta é outra: quantas pessoas possuem condições reais de transformar esforço em oportunidade?

Porque há quem se esforce muito apenas para permanecer no mesmo lugar. Há talentos que jamais serão descobertos, inteligências que não encontrarão espaço para florescer e jovens que desistem não porque lhes falta vontade, mas porque passam a vida inteira enfrentando barreiras que outros sequer percebem que não possuem.

Uma sociedade justa não precisa garantir que todos cheguem ao mesmo lugar, mas não pode aceitar que o lugar de nascimento determine, em grande medida, quem terá o direito de imaginar um futuro diferente. Precisamos de uma sociedade em que o esforço importe justamente porque existem condições mínimas para que ele possa produzir alguma coisa; em que uma criança não precise ser excepcional apenas para escapar da pobreza; em que estudar não seja privilégio de quem pode se dar ao luxo de não trabalhar; em que talento não dependa da sorte de nascer na família certa.

A crítica à meritocracia começa, assim, com uma mudança de olhar. Antes de perguntar por que alguém não chegou, precisamos observar o caminho que lhe foi oferecido, possibilitado. Antes de celebrar quem venceu sozinho, precisamos reconhecer quantas mãos sustentaram sua caminhada. Antes de repetir que basta se esforçar, talvez devamos perguntar se o esforço custa a mesma coisa para todos.

Quase nunca custa.

Reconhecer isso não diminui o valor de nenhuma conquista. Apenas impede que transformemos a desigualdade em virtude e o privilégio em prova de superioridade.

O esforço merece ser reconhecido.

A desigualdade, não.

E uma sociedade não se torna justa quando ensina cada pessoa a aceitar o lugar onde chegou como aquilo que mereceu. Ela começa a se tornar justa quando se recusa a permitir que o lugar de onde alguém veio determine, antecipadamente, até onde ela poderá ir.

** Eduardo Machado é filósofo, professor e psicanalista.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM