O desejo de desaparecer e a pobreza de experiência: notas sobre fugir para o mato

Há algo de filosoficamente significativo — e não apenas psicológico ou social — no crescimento desse desejo difuso de “largar tudo” e ir viver no mato.

Foto: Ilustrativa/Freepik

Por Eduardo Machado

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Há algo de filosoficamente significativo — e não apenas psicológico ou social — no crescimento desse desejo difuso de “largar tudo” e ir viver no mato. Não se trata simplesmente de cansaço urbano ou saturação digital. Trata-se de um mal-estar mais profundo: a sensação de que a própria estrutura da experiência foi esvaziada.

Walter Benjamin já diagnosticava, no início do século XX, a pobreza de experiência (Erfahrung). Para ele, a modernidade não apenas transforma o mundo; ela rompe a continuidade da experiência compartilhável. A vida deixa de ser algo que pode ser narrado com densidade — como uma história — e passa a ser uma sucessão de vivências fragmentárias (Erlebnis), imediatas, intensas, mas incapazes de sedimentar sentido. O sujeito moderno não acumula experiência: ele a consome.

O que hoje chamamos de hiperconectividade radicaliza esse processo. A avalanche contínua de informações não aprofunda o mundo — ela o torna plano. O excesso de estímulo não enriquece a experiência — ele a dissolve. Nesse contexto, o desejo de “ir para o mato” não é apenas fuga do barulho; é a tentativa, ainda que confusa, de recuperar a possibilidade de uma experiência que dure, que se acumule, que se torne narrável.

Mas aqui se impõe uma tensão fundamental. Como também sugeriria Theodor Adorno, a ideia de retorno a uma vida “autêntica” fora da sociedade administrada pode ser ilusória. Não há exterior puro. A própria forma do desejo de fuga já é produzida por aquilo que se quer abandonar. A natureza, nesse imaginário, aparece como refúgio, mas frequentemente é consumida como imagem — mais um objeto dentro da lógica cultural que organiza a nossa percepção.

Ou seja: o impulso de desaparecer contém uma verdade — a recusa de uma vida empobrecida —, mas também uma falsidade — a crença de que há um lugar intacto onde o sentido estaria à espera. A contradição não se resolve facilmente.

Se levarmos isso a sério, a questão deixa de ser “para onde fugir?” e passa a ser: o que aconteceu com a nossa capacidade de experienciar o mundo como significativo?

Aqui, a educação aparece não como técnica de adaptação, mas como problema filosófico central. Uma educação orientada apenas por competências, desempenho e resultados mensuráveis intensifica exatamente aquilo que Benjamin denunciava: ela treina sujeitos para operar no fluxo, mas não para interrompê-lo. Forma indivíduos aptos a responder, mas não a demorar-se. A escola torna-se, assim, uma extensão da lógica que produz a pobreza de experiência.

Uma educação filosófica, por outro lado, exigiria algo mais radical: a reabilitação da lentidão, da atenção e do pensamento como interrupção. Não no sentido de nostalgia por um passado pré-moderno, mas como gesto crítico dentro do presente. Isso implica ensinar a suportar o vazio de sentido — não preenchê-lo imediatamente com estímulos — e a reconhecer que o mundo não é imediatamente inteligível.

Há um ponto em que essa discussão toca o limite: talvez não seja possível “recuperar” plenamente uma experiência rica dentro das condições atuais. Talvez o empobrecimento não seja um acidente, mas uma condição estrutural do nosso tempo. Nesse caso, a tarefa não seria restaurar o que foi perdido, mas tornar essa perda consciente.

E é aqui que o desejo de ir para o mato ganha sua dimensão mais interessante. Ele não precisa ser realizado literalmente para ser significativo. Enquanto sintoma, ele revela uma negatividade: a recusa de que a vida se reduza ao circuito produção-consumo-estímulo. Enquanto gesto simbólico, ele aponta para uma exigência — ainda que vaga — de outro modo de estar no mundo.

A educação, se quiser ser mais do que treinamento, precisa aprender a escutar esse desejo. Não para transformá-lo em projeto de vida alternativo ou mercadoria existencial, mas para interrogá-lo: o que, exatamente, falta na experiência contemporânea? E mais — o que estamos dispostos a perder para que algo como sentido volte a ser possível?

Talvez a resposta não esteja no mato. Mas certamente também não está intacta aqui.

** Eduardo Machado é filósofo, professor e psicanalista.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM