A escola diante da solidão juvenil

Há uma cena comum nos corredores das escolas que talvez diga alguma coisa sobre o nosso tempo. Dezenas de jovens estão juntos

Foto: Ilustrativa/Magnific

Por Eduardo Machado

Há uma cena comum nos corredores das escolas que talvez diga alguma coisa sobre o nosso tempo. Dezenas de jovens estão juntos, conversam, riem, olham para o celular, atravessam grupos, trocam mensagens e passam boa parte do dia cercados por outras pessoas. À primeira vista, seria difícil falar em solidão. Falta de companhia certamente não parece ser o problema.

Mas solidão e ausência de pessoas nunca foram exatamente a mesma coisa.

É possível estar sozinho e sentir-se bem. Há uma solidão escolhida que pode ser necessária: o silêncio para ler, pensar, criar, descansar ou simplesmente permanecer algum tempo consigo mesmo. O sofrimento começa quando estar entre os outros não produz pertencimento; quando alguém participa de grupos, acompanha conversas, recebe mensagens e, ainda assim, experimenta a sensação difícil de não ser verdadeiramente visto por ninguém.

Talvez seja essa uma das formas contemporâneas da solidão juvenil.

Não estamos falando de um problema imaginário ou de uma impressão nostálgica de adultos que acreditam que sua juventude foi melhor. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou um amplo relatório sobre conexão social e estimou que os jovens, especialmente os adolescentes, estão entre os grupos que mais relatam solidão: aproximadamente 21% disseram experimentá-la. A OMS também chama atenção para uma distinção importante: isolamento social pode ser observado pela quantidade de relações e interações que uma pessoa possui; solidão é uma experiência subjetiva, o sofrimento provocado pela distância entre os vínculos que temos e aqueles de que sentimos necessidade.

Essa distinção ajuda a compreender um paradoxo do presente. Nunca dispusemos de tantos meios para permanecer conectados e, ainda assim, conexão não significa necessariamente vínculo.

Podemos saber o que alguém comeu no almoço, onde esteve no fim de semana, qual música está ouvindo e até como se sente sem jamais ter mantido com essa pessoa uma conversa em que o tempo deixou de importar. Podemos acompanhar diariamente a vida de dezenas ou centenas de pessoas e descobrir, em algum momento difícil, que não sabemos para quem telefonar.

Ser visto não é a mesma coisa que ser conhecido.

Ter seguidores não significa sentir-se acompanhado.

Receber mensagens não garante ter com quem conversar.

Não creio, entretanto, que seja suficiente transformar a tecnologia na grande culpada. Seria fácil demais. As redes sociais podem intensificar comparação, exposição, ansiedade e determinadas formas de superficialidade nas relações, mas também aproximam pessoas, sustentam amizades e permitem que muitos jovens encontrem comunidades que talvez não encontrassem em seu entorno imediato. O problema não está simplesmente na existência das telas. Está no tipo de mundo que estamos construindo ao redor delas e, sobretudo, no modo como estamos reorganizando nossa relação com o tempo, com o outro e conosco.

Uma relação humana exige coisas que nossa cultura tem dificuldade de oferecer: demora, disponibilidade, tolerância ao silêncio, convivência com a diferença e disposição para permanecer quando o outro deixa de ser interessante.

As plataformas funcionam de maneira diferente. Se algo não nos interessa, passamos. Se incomoda, bloqueamos. Se demora, aceleramos. Se não produz estímulo, buscamos outra coisa. Pouco a pouco, podemos nos acostumar à ideia de que também as relações deveriam obedecer à mesma lógica.

Mas pessoas não funcionam como conteúdos.

Elas cansam, repetem histórias, mudam de humor, discordam, atravessam períodos difíceis e, às vezes, precisam de nós justamente quando têm pouco a oferecer em troca. Construir um vínculo significa aprender a conviver também com essa parte menos atraente da existência.

É aqui que a escola aparece como um lugar particularmente importante.

Não porque caiba ao professor resolver a solidão dos estudantes. Professores não são terapeutas improvisados, e a escola não pode assumir todas as responsabilidades que famílias, políticas públicas e a própria sociedade têm abandonado pelo caminho. Colocar sobre os educadores mais essa obrigação seria apenas aumentar uma carga que já é excessiva.

A importância da escola está em outra coisa.

Ela talvez seja um dos últimos lugares da vida contemporânea em que somos obrigados a conviver regularmente com pessoas que não escolhemos.

Isso é muito mais importante do que parece.

Escolhemos quem seguimos nas redes, quais vídeos assistimos, que músicas ouvimos e, cada vez mais, quais opiniões desejamos encontrar. Algoritmos aprendem nossos gostos e procuram oferecer um mundo ajustado às nossas preferências.

A escola faz quase o contrário.

Coloca na mesma sala pessoas diferentes, com temperamentos, histórias familiares, condições econômicas, habilidades, crenças, aparências e desejos que não coincidem. Durante meses ou anos, essas pessoas precisam aprender alguma maneira de compartilhar espaço, atenção, conflitos e experiências.

Nem sempre conseguem. Às vezes a convivência escolar produz exclusão, humilhação e violência. A escola também pode ser um dos lugares mais solitários do mundo para quem é constantemente deixado de fora.

É justamente por isso que pertencimento precisa ser compreendido como parte da educação, e não como um detalhe agradável que acontece quando sobra tempo.

Os dados do PISA 2022 tornam essa questão particularmente incômoda para nós: no Brasil, 27% dos estudantes participantes disseram sentir-se sozinhos na escola, enquanto 19% relataram sentir-se como alguém de fora ou excluído das coisas. Ao mesmo tempo, os dados internacionais mostram que sistemas escolares em que os estudantes relatam maior pertencimento também apresentam proporções muito menores de alunos que se sentem solitários ou excluídos.

Isso deveria nos fazer pensar sobre aquilo que chamamos de qualidade escolar.

Estamos acostumados a medi-la por notas, aprovações, índices, frequência, desempenho em avaliações e acesso à universidade. Evidentemente, tudo isso importa. Uma escola que não ensina abandona sua tarefa fundamental.

Mas talvez exista uma pergunta anterior: é possível aprender verdadeiramente em um lugar no qual não sentimos que nossa presença importa?

Pertencer não significa ser popular, concordar com todos ou viver em permanente harmonia. Tampouco significa transformar a escola em um espaço sem exigência, conflito ou frustração.

Pertencer é algo mais elementar.

É entrar em uma sala e perceber que sua ausência seria notada.

Há uma diferença enorme entre o estudante que pensa “preciso ir à escola porque vão registrar minha falta” e aquele que, mesmo sem formular isso claramente, sabe que existem pessoas naquele lugar que perceberiam se ele desaparecesse.

Talvez seja nesse ponto que a educação toque uma dimensão que nenhuma grade curricular consegue registrar.

Um professor que aprende o nome de um aluno, percebe que ele está mais quieto do que de costume e pergunta se está tudo bem pode não imaginar a importância daquele gesto. Uma funcionária que recebe o estudante pelo nome no portão, um colega que guarda um lugar ao lado, alguém que chama para participar do grupo, uma conversa que continua depois do sinal: são acontecimentos pequenos, quase invisíveis, mas é frequentemente assim que o pertencimento é construído.

Não por grandes projetos sobre convivência, embora eles possam ser úteis, mas pela repetição cotidiana de gestos que comunicam: você existe aqui para alguém.

Há uma dimensão filosófica profunda nisso.

Hannah Arendt pensava a educação a partir da chegada dos novos a um mundo que já existia antes deles. Educar não era simplesmente transmitir informações, mas assumir alguma responsabilidade por apresentar esse mundo às novas gerações.

Talvez precisemos acrescentar algo à nossa maneira de compreender essa tarefa.

Não basta apresentar o mundo aos jovens. É preciso fazer com que eles sintam que existe um lugar para eles dentro dele.

Esse talvez seja um dos dramas silenciosos de muitos adolescentes. Eles estão tentando responder simultaneamente a perguntas que nem sempre conseguem formular: quem sou eu, como sou visto, onde me encaixo, o que esperam de mim, o que há de errado comigo, que pessoa devo me tornar?

A adolescência sempre carregou essas questões, mas nossa época acrescentou a elas uma exposição permanente ao olhar dos outros.

O jovem já não se compara apenas com os colegas da própria escola ou da própria cidade. Compara-se com milhares de corpos, vidas, viagens, relacionamentos, conquistas e imagens cuidadosamente apresentadas como espontâneas. A comparação tornou-se praticamente inesgotável.

Nesse ambiente, existe uma forma particularmente dolorosa de solidão: a sensação de que todos os outros parecem estar vivendo melhor.

Todos parecem ter amigos.

Todos parecem seguros.

Todos parecem bonitos.

Todos parecem saber o que estão fazendo.

E então alguém conclui silenciosamente que o problema deve estar nele.

A escola não conseguirá impedir essa comparação, mas pode oferecer uma experiência que faça resistência a ela: a experiência de conhecer pessoas para além daquilo que exibem.

Quem convive realmente com alguém descobre suas contradições. Descobre que o colega aparentemente seguro também sente medo, que a menina que recebe atenção nas redes também se sente inadequada, que o aluno engraçado pode chegar em casa e enfrentar uma realidade difícil, que ninguém é exatamente aquilo que consegue apresentar aos outros.

A convivência desmonta algumas ilusões da comparação porque devolve humanidade às pessoas.

Por isso me preocupa quando imaginamos a escola apenas como uma estação de transmissão de conteúdo. Se fosse somente isso, talvez pudéssemos realmente substituí-la aos poucos por plataformas, aulas gravadas e sistemas de inteligência artificial cada vez mais eficientes.

Mas a escola é também um lugar onde encontramos o outro.

E encontrar o outro significa encontrar aquilo que não controlamos.

É aprender a dividir espaço, esperar, negociar, pedir desculpas, discordar, ajudar, ser ajudado, perceber que existem sofrimentos diferentes dos nossos e descobrir que, apesar dessas diferenças, alguma vida comum ainda é possível.

Isso também é educação.

Talvez seja, inclusive, uma das aprendizagens mais urgentes do nosso tempo.

Vivemos cercados por discursos sobre saúde mental, inteligência emocional e habilidades socioemocionais, mas corremos o risco de transformar até os vínculos em mais uma competência individual a ser desenvolvida. Como se pertencimento pudesse ser ensinado numa apresentação de slides e avaliado depois por meio de um formulário.

Não pode.

Pertencimento não é uma habilidade que alguém possui sozinho.

Só existe entre pessoas.

Por isso, uma escola que deseja enfrentar a solidão juvenil precisa olhar não apenas para o jovem considerado isolado, mas para a qualidade das relações que organiza. Precisa se perguntar se há tempo para conversar, se os recreios realmente favorecem encontros, se os alunos encontram adultos em quem confiam, se a diferença é acolhida ou transformada em motivo de humilhação e se a lógica de desempenho não está fazendo cada estudante enxergar o colega apenas como concorrente.

Às vezes perguntamos demais ao jovem solitário: “Por que você não se enturma?”

Talvez devêssemos perguntar também ao ambiente: que tipo de lugar oferecemos para que alguém possa se sentir parte?

Essa mudança importa porque retira a solidão do campo exclusivo da falha individual. Nem todo jovem que está sozinho precisa simplesmente “se abrir mais”, “fazer amigos” ou “sair do celular”. Há momentos em que precisamos olhar para as formas de convivência que estamos produzindo.

A escola não resolverá a solidão contemporânea, nem deveria carregar sozinha essa expectativa. Mas pode oferecer algo cada vez mais raro: um espaço onde a presença não dependa de desempenho, aparência ou capacidade de chamar atenção.

Um lugar em que alguém possa ser conhecido aos poucos.

Talvez uma das perguntas mais importantes que uma escola possa fazer a si mesma não apareça em nenhuma avaliação oficial:

quantos dos nossos estudantes sentiriam falta deste lugar se aqui não houvesse ninguém que sentisse falta deles?

A resposta diz muito sobre aquilo que estamos ensinando.

Porque educar não é apenas preparar alguém para provas, profissões ou para um futuro que ainda virá. É também ajudá-lo a descobrir que já existe um mundo ao seu redor, povoado por outras pessoas, e que sua presença nesse mundo possui significado.

Em uma época de tantos contatos e tão poucos vínculos seguros, talvez a escola tenha uma responsabilidade que não é nova, mas se tornou urgente: ensinar, pela experiência cotidiana, que viver entre os outros pode ser mais do que estar cercado por eles.

Pode significar pertencer.

** Eduardo Machado é filósofo, professor e psicanalista.

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