Entre o pincel e as incertezas
Começar o ano letivo nunca foi apenas virar a página do calendário. Para nós, professores da rede pública estadual do Espírito Santo, o início das aulas é sempre um atravessamento de expectativas

Por Eduardo Machado
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiComeçar o ano letivo nunca foi apenas virar a página do calendário. Para nós, professores da rede pública estadual do Espírito Santo, o início das aulas é sempre um atravessamento de expectativas, de medos silenciosos, de ajustes forçados e, sobretudo, de resistência cotidiana.
Voltar à escola depois do recesso é reencontrar corredores que ainda cheiram a promessa. As salas limpas, os diários em branco, os rostos novos, tudo parece convidar a um recomeço esperançoso. Mas quem está do lado de cá da mesa sabe que o reinício também carrega pesos invisíveis.
Há uma inquietação que não cabe nos planejamentos pedagógicos. Ela nasce das mudanças constantes de rotina, das reformulações curriculares que chegam sem o tempo necessário de assimilação, das plataformas que substituem processos sem, necessariamente, melhorar as condições de trabalho. Somos convocados, a cada ano, a reaprender a dar aula dentro de novas regras, muitas vezes sem formação adequada, sem escuta, sem diálogo.
Ensinar filosofia, nesse contexto, é viver um paradoxo diário.
Falamos de pensamento crítico, de autonomia, de liberdade, enquanto lidamos com cargas horárias comprimidas, turmas superlotadas e uma sensação crescente de que o tempo para pensar está sendo retirado de todos nós. A filosofia pede pausa, silêncio, maturação de ideias. A escola real nos pede velocidade, preenchimento de relatórios, cumprimento de metas que nem sempre dialogam com a formação humana que defendemos.
E, ainda assim, seguimos.
Seguimos porque sabemos que, para muitos estudantes, a escola é o único espaço onde a vida pode ser interrogada com alguma profundidade. Onde alguém pergunta “por quê?” e não apenas “quanto vale?”. Onde a dúvida não é fraqueza, mas potência.
Mas não dá para negar: começamos o ano com medo.
Medo da ampliação de carga horária sem a correspondente valorização. Medo das atribuições que se acumulam para além da sala de aula. Medo de que o cansaço emocional, que já não era pequeno, se torne regra. Medo de adoecer, física e psiquicamente, num sistema que ainda naturaliza o esgotamento docente.
E este não é um ano qualquer.
É ano de eleição.
E isso atravessa a escola de múltiplas formas. Surgem discursos prontos sobre educação, promessas rápidas, soluções simplificadas para problemas complexos. Nós, que vivemos o chão da escola todos os dias, aprendemos a escutar essas falas com um misto de esperança cautelosa e exaustão histórica.
Sabemos que a educação costuma aparecer como prioridade nos palanques, mas nem sempre no orçamento, na carreira, na infraestrutura ou nas condições concretas de trabalho.
Em ano eleitoral, cresce também a tensão dentro e fora da sala. Os estudantes trazem para o debate as polarizações que veem nas redes e em casa. E nós, professores de filosofia, somos novamente chamados a exercer um papel delicado: sustentar o espaço do pensamento crítico sem transformar a aula em palanque, nem permitir que ela se torne um campo de silenciamento.
Ensinar a argumentar sem agredir. Discordar sem desumanizar. Pensar sem medo.
Talvez nunca tenha sido tão necessário.
Mas, para além das dimensões políticas e institucionais, há algo mais íntimo que marca esse início de aulas: a mudança brusca de rotina.
O corpo sente.
Depois de semanas em outro ritmo, voltamos a acordar antes do sol, enfrentar longos deslocamentos, reorganizar planejamentos domésticos, conciliar múltiplas escolas, múltiplos vínculos, múltiplas realidades. O professor da rede pública raramente trabalha em apenas um lugar e essa fragmentação cobra seu preço em tempo, energia e presença.
Recomeçar o ano é também recalibrar a própria vida.
E, no meio disso tudo, há o encontro com os estudantes, que continua sendo o que nos move.
É curioso: mesmo diante de tantas incertezas, basta a primeira aula acontecer de verdade para que algo se reacenda. Uma pergunta inesperada, uma leitura que provoca silêncio, um debate que ganha corpo, são nesses momentos que lembramos por que escolhemos estar aqui.
A filosofia tem disso: ela resiste nas frestas.
Ela acontece quando um aluno percebe que pode pensar por conta própria. Quando alguém entende que sua experiência de vida também é digna de reflexão. Quando a escola deixa de ser apenas obrigação e se torna espaço de elaboração do mundo.
Por isso, talvez, começar o ano seja um ato de coragem compartilhada.
Dos professores, que seguem ensinando mesmo quando as condições não são ideais.
Dos estudantes, que seguem acreditando que estudar pode abrir caminhos.
E de todos nós que, apesar do cansaço, ainda apostamos que a educação pública é um projeto coletivo que vale a pena sustentar.
Falo especialmente a vocês, colegas professores.
Sei que muitos iniciam o ano já exaustos. Sei que há frustrações acumuladas, salários que não acompanham responsabilidades, reconhecimentos que não chegam. Sei que, às vezes, a vontade é apenas atravessar o calendário e chegar logo em dezembro.
Mas também sei que há algo na nossa presença que não é substituível.
Nenhuma plataforma substitui o olhar atento de quem percebe que um aluno não está bem. Nenhum material padronizado substitui a sensibilidade de quem adapta a aula à realidade da turma. Nenhuma política educacional ganha vida sem o nosso trabalho cotidiano.
Somos nós que transformamos diretrizes em experiência concreta.
Começar o ano, então, não é apenas cumprir protocolo. É reafirmar, ainda que silenciosamente, um compromisso ético com o pensamento, com a escuta e com a formação humana, mesmo quando o cenário é adverso.
Talvez 2026 traga mudanças. Talvez algumas sejam boas, talvez outras nem tanto. Em ano de eleição, as promessas se multiplicam, mas a realidade da sala de aula continua exigindo de nós a mesma coisa: presença, consistência e coragem.
Que possamos começar este ano letivo cuidando também de nós.
Respeitando nossos limites, fortalecendo nossas redes de apoio, compartilhando angústias que não precisam ser vividas em solidão. A docência, embora exercida muitas vezes de forma solitária em sala, é uma experiência coletiva e só se sustenta assim.
Entre o pincel e as incertezas, seguimos.
Não porque seja fácil.
Mas porque, apesar de tudo, ainda acreditamos que pensar transforma e que a escola pública continua sendo um dos poucos lugares onde essa transformação pode alcançar a todos.
Que o início das aulas nos encontre cansados, talvez, mas nunca indiferentes.
** Eduardo Machado é filósofo, professor e psicanalista.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
