Importância dos laços na vida escolar
É essencial estar atento para que as amizades não se tornem instrumentos de exclusão ou dominação

Por Eduardo Machado
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiA amizade é, sem dúvida, uma das forças mais transformadoras da vida humana. Para mim, que sou profundamente grato pelas amizades que cultivo — especialmente pelo meu melhor amigo, cuja presença é um pilar inabalável em minha jornada —, refletir sobre essa relação é também um convite a pensar como esses laços impactam a vida dos estudantes. Afinal, a escola não é apenas um lugar de aprendizado formal, mas também um espaço onde se tecem histórias, se constroem relações e se compartilham os desafios e as alegrias de crescer.
A filosofia nos oferece um rico repertório para pensar a amizade. Aristóteles, por exemplo, via nela uma das formas mais nobres de vínculo humano, essencial para a felicidade. Ele identificava três tipos de amizade: a de utilidade, a de prazer e a de virtude. Esta última, baseada no mútuo desejo pelo bem do outro, era, para ele, a mais elevada. E é essa amizade que podemos ajudar nossos estudantes a compreender e valorizar: uma relação que transcende interesses momentâneos e se enraíza em valores profundos, como respeito, confiança e reciprocidade.
Na vida escolar, a amizade desempenha um papel ainda mais crucial. Durante a adolescência, em meio a tantas mudanças e incertezas, os amigos se tornam refúgios, conselheiros e parceiros de aventuras. Eles são os primeiros a ouvir nossos sonhos, os primeiros a rir das nossas piadas e, muitas vezes, os primeiros a estender a mão quando tropeçamos. Para muitos estudantes, especialmente aqueles que enfrentam desafios fora da escola, a amizade é o fio que os mantém conectados e motivados, muitas vezes, mais ainda que as próprias famílias.
Como professores, temos uma responsabilidade delicada e poderosa nesse processo. Precisamos criar ambientes onde a amizade possa florescer de maneira saudável, onde os alunos se sintam seguros para serem quem são e para estabelecer conexões genuínas. Mas isso exige mais do que promover trabalhos em grupo ou organizar atividades coletivas. É preciso cultivar uma cultura de empatia, de escuta e de respeito mútuo, onde as diferenças sejam acolhidas e as semelhanças, celebradas.
Ao mesmo tempo, é essencial estar atento para que as amizades não se tornem instrumentos de exclusão ou dominação. Infelizmente, o ambiente escolar também pode ser palco de bullying, rivalidades e dinâmicas tóxicas que minam a autoestima e a confiança dos jovens. Aqui, a filosofia nos ajuda novamente, ensinando-nos a pensar criticamente sobre as relações que construímos e a questionar o que nos aproxima e o que nos afasta dos outros.
Por isso, acredito que o papel do professor vai além de mediador. Ele deve ser um modelo de respeito, solidariedade e acolhimento. Quando mostramos aos alunos que cada indivíduo tem valor intrínseco, ajudamos a construir relações mais justas e respeitosas. Além disso, compartilhar histórias sobre a importância das amizades em nossas vidas pode inspirar os estudantes a valorizar os laços que têm — e a buscar relações que os engrandeçam.
A amizade, no entanto, não é apenas importante para os jovens. Ela nos transforma em todas as fases da vida. No meu caso, é impossível pensar quem sou hoje sem reconhecer o impacto das amizades que construí. Meu melhor amigo, em particular, não é apenas um companheiro; é uma bússola pré-moral, alguém que me ajuda a reencontrar meu caminho quando me sinto perdido. Essa relação me lembra, todos os dias, que não estamos sozinhos, que crescer é sempre mais fácil quando temos alguém ao nosso lado para dividir as dores e as conquistas.
E é esse sentimento que desejo que meus alunos descubram. Quero que entendam que a amizade verdadeira é uma dádiva, um encontro entre almas que se reconhecem e se respeitam. Quero que saibam que, assim como aprender sobre a Revolução Francesa ou os fundamentos do Existencialismo, aprender a cultivar e valorizar as amizades é uma das lições mais importantes que a escola pode oferecer.
Por fim, quando penso em como a amizade pode ser transformadora, lembro-me de que a escola não é apenas um espaço de formação acadêmica, mas também um lugar onde os alunos começam a moldar quem são como seres humanos. E, nesse processo, as amizades que cultivam, os laços que fortalecem e as conexões que constroem são tão importantes quanto qualquer conteúdo ensinado.
Que sejamos, então, professores que incentivem esses laços, que inspirem relações baseadas na virtude e que demonstrem, pelo exemplo, o poder da amizade em nossas vidas. Porque, no fundo, ensinar é isso: tocar vidas e formar redes de amor, respeito e confiança. Que nossos alunos encontrem amigos que sejam para eles o que meu melhor amigo é para mim — e que essas amizades sejam faróis a guiá-los em todas as suas jornadas.
** Eduardo Machado é filósofo e professor especialista de Filosofia, licenciado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
