No Dia do Professor, a homenagem que falta
Se queremos que os jovens escolham a docência, talvez seja hora de parar de perguntar como tornar a profissão

Por Eduardo Machado
Se queremos que os jovens escolham a docência, talvez seja hora de parar de perguntar como tornar a profissão mais atraente e começar a perguntar por que fizemos dela uma carreira tão difícil de desejar.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp!Todo ano, quando chega o Dia do Professor, acontece mais ou menos a mesma coisa.
As redes sociais se enchem de homenagens. Escolas preparam mensagens, estudantes escrevem bilhetes, autoridades publicam fotografias acompanhadas de palavras como “gratidão”, “vocação”, “missão” e “transformação”. Por algumas horas, parece existir um consenso nacional de que professores são indispensáveis.
No dia seguinte, eles voltam para a escola.
E talvez seja justamente aí que devêssemos começar esta conversa.
Porque existe algo profundamente contraditório em uma sociedade que chama o professor de essencial enquanto organiza a profissão de tal maneira que cada vez menos jovens conseguem imaginar nela um futuro desejável.
Não me parece que nos faltem homenagens.
Falta transformar admiração simbólica em condições concretas de trabalho.
O problema é que falar em valorização docente é fácil enquanto valorização significa aplauso. A dificuldade começa quando a palavra precisa ser traduzida em orçamento, salário, concurso público, estabilidade, plano de carreira, condições adequadas de trabalho, formação continuada e tempo para fazer aquilo que constitui a própria profissão: estudar, preparar aulas, corrigir trabalhos, acompanhar estudantes e pensar pedagogicamente.
Nesse momento, a homenagem deixa de ser sentimental e se torna política.
E talvez seja justamente por isso que tantas vezes paramos antes dela.
A profissão que todos dizem valorizar
Os próprios professores parecem perceber essa distância entre discurso e realidade.
Na pesquisa internacional TALIS 2024, coordenada pela OCDE, apenas 14% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental disseram sentir que sua profissão é valorizada pela sociedade. Somente 22% declararam estar satisfeitos com seus salários, enquanto menos da metade — 44% — afirmou estar satisfeita com suas condições de emprego, desconsiderando a remuneração.
Esses números deveriam produzir algum desconforto.
Não porque professores precisem ser permanentemente elogiados, mas porque uma profissão responsável pela formação das próximas gerações não deveria sobreviver apoiada principalmente na resistência pessoal de quem a exerce.
Há alguma coisa errada quando uma sociedade precisa lembrar constantemente aos professores que seu trabalho é uma “missão”.
Profissões importantes não deveriam depender de sacrifício permanente para funcionar.
Quando dizemos a um professor que ele precisa suportar condições ruins porque sua atividade é uma vocação, há uma inversão perigosa acontecendo. Aquilo que deveria justificar maior valorização começa a ser utilizado para justificar a precariedade.
O professor ama ensinar, então suportará.
O professor se preocupa com os alunos, então fará mais um pouco.
Preparará a atividade em casa.
Responderá à mensagem depois do horário.
Comprará algum material que faltou.
Corrigirá provas durante o fim de semana.
Resolverá conflitos para os quais jamais recebeu formação.
Preencherá relatórios, plataformas e planilhas.
Participará de reuniões e, na manhã seguinte, entrará na sala como se nada disso tivesse consumido tempo ou energia.
Aos poucos, o extraordinário vira rotina.
E aquilo que deveria ser reconhecido como sobrecarga passa a ser chamado de compromisso.
Dar aula é apenas uma parte de dar aula
Talvez quem nunca tenha trabalhado como professor imagine a jornada docente a partir do tempo que aparece diante dos alunos.
A aula começa e termina. Portanto, parece fácil calcular o trabalho.
Mas uma aula de cinquenta minutos não começa quando o professor entra na sala nem termina quando toca o sinal.
Existe preparação. Há leitura, planejamento, seleção de materiais, elaboração de atividades e avaliações. Depois existem correções, registros, reuniões, acompanhamento dos estudantes, conversas com famílias, demandas administrativas e toda a quantidade de decisões pequenas que uma sala de aula exige ao longo do dia.
Os dados da TALIS ajudam a tornar visível essa parte pouco percebida da profissão. Professores brasileiros em tempo integral relataram uma jornada média total de 40,3 horas semanais, sendo 29,2 horas dedicadas ao ensino; relataram ainda 9,3 horas semanais preparando aulas e 6,1 horas corrigindo trabalhos. A mesma pesquisa mostra que 66% apontam a responsabilização pelo desempenho dos estudantes como fonte significativa de estresse, 64% mencionam a manutenção da disciplina e 60% o excesso de correções.
Talvez seja difícil compreender a docência sem compreender esse paradoxo: exige-se cada vez mais do professor ao mesmo tempo que se fragilizam as condições que permitiriam responder adequadamente a essas exigências.
Queremos professores capazes de inovar, incluir, personalizar o ensino, utilizar tecnologia, compreender novas metodologias, cuidar das relações, identificar dificuldades, enfrentar a violência, ensinar pensamento crítico e produzir bons resultados.
Tudo isso é razoável como horizonte.
O problema é imaginar que essas exigências possam simplesmente ser acrescentadas indefinidamente à mesma jornada, como se tempo, energia e atenção fossem recursos inesgotáveis.
Não são.
A precariedade também ensina
Há ainda um problema que me parece particularmente grave porque atinge diretamente a ideia de pertencimento profissional: a fragilidade dos vínculos de trabalho.
O Censo Escolar de 2025 mostrou que, considerando os docentes das redes estaduais brasileiras, 49,3% estavam contratados temporariamente, enquanto 48,6% eram concursados, efetivos ou estáveis. No Espírito Santo, a situação registrada naquele ano era ainda mais expressiva: 75,4% dos docentes da rede estadual estavam em contratos temporários e apenas 24,5% possuíam vínculo efetivo ou estável.
É um dado que merece ser lido devagar.
Três em cada quatro professores da rede estadual capixaba registrados naquele levantamento trabalhavam sob designação temporária.
Houve movimento posterior de ingresso de efetivos — em maio de 2026, por exemplo, o Governo do Estado anunciou a nomeação de mais 426 professores e pedagogos provenientes do concurso público —, o que precisa ser reconhecido. Ao mesmo tempo, a própria Secretaria de Educação abriu em 2026 novos processos para contratação temporária de professores habilitados e até de professores não habilitados para atuação em 2027.
A questão não é demonizar todo contrato temporário. Sistemas educacionais precisam de alguma flexibilidade para substituições e necessidades transitórias.
O problema surge quando aquilo que deveria atender situações excepcionais começa a ocupar uma parcela estrutural da rede.
Porque um contrato não é apenas uma modalidade administrativa.
Ele produz uma forma de relação com a profissão.
Como construir pertencimento a uma escola quando existe incerteza sobre onde se estará no ano seguinte? Como desenvolver projetos de longo prazo quando a continuidade do próprio vínculo é incerta? Como criar raízes numa comunidade escolar quando, periodicamente, é preciso disputar novamente um posto de trabalho?
A precariedade do vínculo do professor também se torna precariedade institucional da escola.
Escolas não são feitas apenas de prédios, currículos e plataformas. São feitas de memória.
De professores que conhecem as famílias, compreendem a comunidade, acompanharam irmãos de uma mesma casa, participaram de projetos que duraram anos e construíram relações que não podem ser substituídas a cada novo processo seletivo.
Quando o professor se torna permanentemente provisório, alguma coisa da escola também se torna provisória.
E queremos que os jovens escolham essa profissão
Há alguns anos ouvimos alertas sobre a dificuldade de atrair novos professores, particularmente para determinadas áreas do conhecimento e regiões do país.
A resposta pública começou a reconhecer esse problema. O governo federal criou o Pé-de-Meia Licenciaturas para atrair estudantes de bom desempenho para cursos presenciais de formação docente, e a Política Nacional de Indução à Docência, instituída em 2026, prevê bolsas, estímulos para atuação em áreas com carência de professores, cumprimento do piso e substituição progressiva de temporários por efetivos, entre outras medidas.
São iniciativas relevantes.
Mas precisamos compreender o tamanho do problema.
Atrair alguém para uma licenciatura é diferente de convencê-lo a permanecer professor durante trinta anos.
Podemos oferecer uma bolsa para que um jovem curse Matemática, Física, Filosofia, Letras ou Pedagogia. Podemos realizar campanhas sobre a importância da profissão. Podemos mostrar histórias inspiradoras de professores que transformaram vidas.
Tudo isso pode ajudar.
Mas, em algum momento, esse jovem olhará para a vida dos professores que já conhece.
E talvez nenhuma campanha institucional seja tão convincente quanto aquilo que ele observa.
Verá quanto recebem.
Verá como trabalham.
Verá quantas escolas precisam percorrer para completar renda.
Verá se possuem estabilidade.
Verá quanto tempo têm para preparar boas aulas.
Verá como são tratados pelos estudantes, pelas famílias, pelos gestores e pelos governos.
Verá se experiência e formação produzem progressão profissional significativa.
Verá professores adoecendo, desanimando ou procurando outra carreira.
E então fará aquilo que qualquer jovem racional faria: perguntará se deseja aquela vida para si.
Talvez estejamos tentando resolver com propaganda um problema que é de estrutura.
O piso é importante. Mas o piso é o piso.
Em 2026, o piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica passou a R$ 5.130,63 para jornada de até quarenta horas semanais, conforme a legislação federal. A mudança também estabeleceu uma nova fórmula de atualização do valor.
É uma conquista importante e necessária.
Mas é preciso lembrar aquilo que a própria palavra diz: piso não significa valorização plena; significa o mínimo abaixo do qual a remuneração inicial não deveria estar.
Uma carreira verdadeiramente atraente precisa discutir muito mais do que o vencimento inicial.
Precisa permitir progressão.
Precisa valorizar formação e experiência.
Precisa possibilitar que alguém imagine onde estará profissionalmente daqui a dez ou vinte anos.
Precisa tornar possível dedicar-se a uma escola sem transformar a busca por complementação de renda em parte inevitável da profissão.
E precisa reconhecer algo que frequentemente esquecemos: tempo de trabalho não é apenas tempo diante do aluno.
Um sistema que paga a aula, mas invisibiliza tudo aquilo que permite que a aula exista, não compreendeu inteiramente o trabalho docente.
Valorização não pode depender da boa vontade de quem governa
Essa discussão também precisa ser politicamente madura.
Valorização docente não pertence a um partido, a um governo ou a um campo ideológico.
Governos municipais, estaduais e federais, de diferentes orientações políticas, precisam ser avaliados pelo que efetivamente fazem com carreira, remuneração, concurso, formação e condições de trabalho.
Porque a educação possui uma característica inconveniente para a política: seus resultados raramente cabem num mandato.
Formar bons professores demora.
Construir carreiras sólidas demora.
Criar equipes escolares estáveis demora.
Melhorar aprendizagem demora.
Talvez por isso seja tão tentador investir naquilo que pode ser inaugurado, fotografado ou anunciado rapidamente, enquanto políticas de carreira são menos visíveis.
Não existe placa de inauguração para estabilidade profissional.
Não existe cerimônia para uma hora adequada de planejamento.
Não existe fotografia particularmente emocionante de um plano de carreira funcionando bem durante vinte anos.
Mas talvez sejam justamente essas políticas pouco espetaculares que sustentem uma educação pública de qualidade.
Respeitar o professor também significa permitir que ele seja professor
Há outro aspecto da valorização que não cabe apenas no salário.
Precisamos devolver à docência alguma autoridade intelectual.
Em muitos sistemas educacionais, professores sentem que sua autonomia vai sendo comprimida entre currículos extremamente prescritos, plataformas, metas, avaliações, formulários e orientações produzidas longe da realidade concreta de suas turmas.
Naturalmente, redes de ensino precisam de coordenação, objetivos comuns e avaliação.
Mas existe uma diferença entre coordenar o trabalho do professor e transformá-lo em executor de decisões tomadas por todos, menos por ele.
Se queremos profissionais altamente qualificados, precisamos tratá-los como profissionais altamente qualificados.
Isso significa escutá-los na formulação das políticas educacionais.
A mesma TALIS que revela baixa percepção de valorização social mostra que apenas 14% dos professores brasileiros pesquisados consideram que suas opiniões são valorizadas pelos responsáveis pelas políticas educacionais.
Talvez exista aí uma pista importante.
Falamos muito sobre professores.
Talvez precisemos voltar a falar com eles.
O que faria um jovem querer ser professor?
Essa talvez seja a pergunta que deveríamos fazer neste Dia do Professor.
Não apenas como conseguir mais matrículas nas licenciaturas, mas que profissão estamos oferecendo à próxima geração.
Eu gostaria que um estudante terminasse o ensino médio e pudesse olhar para a docência como olharia para outras carreiras intelectualmente exigentes e socialmente relevantes: uma profissão difícil, sim, mas respeitada; exigente, mas capaz de oferecer estabilidade; socialmente importante e também materialmente sustentável.
Gostaria que ser professor não precisasse ser explicado como uma escolha feita “apesar” do salário, “apesar” das condições ou “apesar” da carreira.
Quando alguém diz que quer ser médico, engenheiro ou advogado, raramente ouvimos imediatamente:
“Mas você sabe como essa profissão é desvalorizada?”
Por que naturalizamos essa resposta quando um jovem diz que quer ensinar?
Há alguma coisa profundamente errada nisso.
Uma sociedade que realmente considera a educação estratégica deveria disputar seus melhores jovens para a docência.
Deveria fazer com que estudantes brilhantes enxergassem a sala de aula como lugar de realização intelectual, profissional e humana.
Não por heroísmo.
Por carreira.
Amanhã haverá homenagens
No dia 15 de outubro, provavelmente veremos novamente fotografias de professores acompanhadas de frases bonitas.
E elas não são inúteis.
Um bilhete sincero de um aluno pode significar muito para quem ensina. O reconhecimento afetivo faz parte da experiência humana e não precisa ser desprezado apenas porque existem problemas estruturais.
Mas seria bom que não confundíssemos carinho com política pública.
Professor não paga contas com homenagem.
Não constrói estabilidade com aplauso.
Não prepara uma boa aula com gratidão institucional.
Não permanece numa profissão durante décadas apenas porque um dia alguém lhe disse que sua missão é nobre.
Talvez a homenagem mais séria que uma sociedade possa prestar aos seus professores seja permitir que deixem de precisar ser heróis para conseguir exercer o próprio trabalho.
Isso significa salário digno, carreira, concurso público, estabilidade, formação, tempo de planejamento, infraestrutura e respeito à autonomia profissional.
Significa também admitir que nenhuma reforma educacional será melhor do que as condições oferecidas às pessoas que terão de realizá-la dentro da sala de aula.
Por isso, neste Dia do Professor, talvez devêssemos economizar um pouco nas palavras e aumentar nossa exigência sobre as escolhas públicas.
A pergunta não é se valorizamos os professores.
Quase todo mundo responderá que sim.
A pergunta séria é outra:
que condições concretas estamos dispostos a oferecer para provar isso?
Porque, se quisermos que os jovens escolham a docência amanhã, precisaremos mostrar, na vida dos professores de hoje, que essa escolha vale a pena.
** Eduardo Machado é filósofo, professor e psicanalista.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
